Os debates de sexta-feira (13/12/19) foram encerrados com uma discussão acerca do filme A Febre, de Maya Da-Rin, em mesa mediada por Flavia Guerra, em que estavam presentes também as atrizes Rosa Peixoto e Suzy Lopes, o ator Lourinelson Vladmir e o diretor de som Felipe Mussel. O longa apresenta uma família indígena que migrou para Manaus e focaliza sobretudo a relação entre o pai – que trabalha como vigilante do porto – e sua filha – que acaba de ser aprovada no vestibular para cursar medicina em Brasília.

Segundo Maya, Manaus é uma cidade industrial localizada próxima à floresta e onde as sociedades indígenas e urbanas se afetam mutuamente. Maya conta que fizera pesquisa em comunidades indígenas durante um ano, convidando pessoas a participarem do longa. Rosa, que vem de uma família de atores, dividiu a importância da relação em todo o processo e a alegria de ser dirigida por uma mulher. 

Ressaltou o suporte vindo de Suzy. Assim, Suzy comentou que as duas puderam se ajudar sob a força de uma mulher na direção. Lourinelson, que contracena com Regis Myrupo – o protagonista de A Febre –, contou que Maya propôs um contato entre os atores, com sons, silêncios e músicas; as cenas foram lentamente construídas. Flavia dissertou acerca do não dito presente no filme que, segundo Lourinelson, trata-se da introspecção trazida por Regis.

Da plateia surgiram perguntas a respeito da tradução, uma vez que A Febre é falado em português e tukano. A equipe coloca que os ensaios foram iniciados em português e em dado momento o elenco transicionou para as cenas em tukano. Ao vê-los encenando numa língua que não conhecia, Maya conseguia perceber a mudança na corporalidade da atuação, além de perceber outros elementos de cena fora o diálogo. Durante a edição, o texto falado em tukano foi traduzido por Rosa e revisado.

Flavia pediu para que Felipe comentasse sobre o trabalho de som, que se torna um personagem do filme. Felipe explicou que a composição da paisagem sonora foi realizada coletivamente a partir das indicações do roteiro, passando a um trabalho em set e finalmente a um "retrabalho" na pós-produção. O objetivo era construir um a malha de som densa em que indústria e floresta se fundem, configurando para Maya uma perturbação vivida pelo personagem Justino (além de ser um mecanismo de acesso do mundo interior do personagem). A diretora destacou a importância de cada personagem ser compreendido individualmente, e não como representantes de um povo ou cultura.

Por: Marina Martins

Foto: Mariana Franco




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