Neste sábado (14/12/19) a mostra Première Brasil: Novos Rumos exibiu o documentário "A rosa azul de Novalis", seguido por um debate com o diretor Gustavo Vinagre e mediado pelo roteirista Rodrigo de Vasconcelos. O longa revive memórias variadas de Marcelo, que afirma ter sido em vidas passadas o poeta romântico Novalis, criador de uma flor azul perseguida em suas obras.

Rodrigo inicia a conversa questionando como se dera a construção de um roteiro de gênero híbrido. Gustavo explica que costuma trabalhar em seus documentários com roteiros, por vezes mais ou menos "escaletados" e com indicações de mise-en-scène. No caso de A rosa azul de Novalis, o roteiro deve-se também aos encontros com Marcelo: havia, por um lado, a coleta de suas histórias e, por outro, um diálogo frequente com a equipe para compreender quais eram os limites de sua exposição enquanto personagem. 

Sobre as cenas de abertura e encerramento do documentário (em que o ânus de Marcelo é mostrado em planos fechados), o mediador indaga como o filme encara - e mesmo combate - um imaginário que associa o ânus à morte. "Desde a primeira cena do filme, há uma intenção nossa de mudar a hierarquia do corpo. Descentralizar a hierarquia que identifica nossa identidade como rosto", responde o diretor. 

Optaram por falar sobre o HIV no início de A rosa azul de Novalis para torná-lo parte do cotidiano de Marcelo e explorarem, de maneira mais profunda, a sexualidade de uma pessoa soropositiva. Um espectador comenta a literalidade no roteiro que consegue ser traduzida para a linguagem cinematográfica. Segundo Gustavo, seus roteiros são normalmente monólogos e literários.

O diretor relata certa dificuldade em dirigir um não-ator e, mais ainda, tratando-se de um personagem corriqueiramente descrito por outros como um quebra-cabeças de histórias. Foi necessário realizar alguma preparação para que Marcelo se mostrasse mais vulnerável e frágil no documentário. Durante as gravações (apenas 3 diárias), informa que o personagem não recuou e descreve o processo como tranquilo. Rodrigo pergunta sobre a relação do protagonista com o kitsch. Para Gustavo, o grande conflito de Marcelo é justamente ser um personagem romântico preso num mundo kitsch de objetos banalizados. 

Finalizando a mesa, o mediador pede que Gustavo comente o que espera da recepção do filme num momento em que o cinema brasileiro e mesmo a existência LGBT têm sido cerceados no país. Apesar de mais de 20 cidades exibirem A rosa azul de Novalis, o pôster original do filme foi negado por diversos cinemas, revela o diretor.

Por: Mariana Ísis

Foto: Luiza Grün



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