O jornalismo independente do Midia Ninja é personagem do filme Encriptado (Black Coding), dirigido por Nick de Pensier e exibido na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) na noite do dia 13. O filme é um relato impressionante sobre como os governos controlam e manipulam a internet para censurar e monitorar seus cidadãos. Tudo com histórias e experiências distintas, que vão de monges tibetanos que burlaram o aparelho de vigilância da China a ativistas brasileiros do Midia Ninja, que usam as redes sociais para pluralizar a voz da mídia. Vemos em primeira mão as consequências de alto risco que o nível de comunicação digital sem precedentes pode produzir. À medida que essa batalha pelo controle do ciberespaço é travada, nossas ideias sobre cidadania, privacidade e democracia serão redefinidas. O filme esteve no Festival de Toronto.​

Na sessão do MAM,  a juventude alegre e ativista dos ninjas compareceu ao debate, liderado pela professora Ivana Bentes, da UFRJ. Estiveram no debate os ninjas Felipe Altenfelder, Thalma de Freitas, Ana Pessoa, Gian Martins, Filipe Peçanha, Claudia Schulz, Jasmine Giovanninni, Pamela Ortiz e Tatiana Pansanato. Na sala lotada da Cinemateca, a conversa começou com duas provocações de Ivana Bentes:

Este é um debate com os personagens da historia. A parte do Brasil é emocionante. Este é um filme que começa a recontar o que aconteceu aqui em 2013, o que foi aquele momento incrível. Acho que a gente ainda hoje, em 2017, não saiu de 2013, dos problemas apontados em 2013. E quando a gente observa as estratégias de criminalização dos midiativistas, a construção de uma narrativa dos protestos de rua em torno dos vândalos e baderneiros, dos black blocs, a gente hoje, em 2017, poderia começar a se perguntar: quem eram os vândalos? O governador Sérgio Cabral e seus secretários estão presos por corrupção, o bilionário Eike Batista preso por corrupção, e todo aquele establishment desmoronou diante da tremenda corrupção na Copa do Mundo, contra a qual os midiativistas estavam se posicionando em 2013. E ainda não houve uma revisão da história. Ninguém pediu desculpas pela prisão de 19 midiativistas, gente que teve suas vidas destruídas como a militante Sininho. E quando a gente vê esta guerra que continua a ser travada nas redes sociais, com a atuação dessa direita raivosa do MBL agora contra os artistas chamados de pornógrafos, todos percebem que a resposta vem dos ninjas, da sua atuação absolutamente inspiradora nas redes sociais, de um jornalismo de rua, um jornalismo ativista como o que faz Bruno Telles, que está aqui presente para debater.

A segunda questão importante a ser debatida foi a da transparência no midiativismo e nas redes sociais. Segundo Ivana: 

_ Quando o filme aborda a atuação do Wikileaks, ele fala do fim da cultura do segredo. Aqui quero pontuar o seguinte: a defesa da privacidade individual na Internet é fundamental, mas não pode existir privacidade no trato com as ações governamentais. O Estado tem que ter dados abertos. A  gente precisa saber tudo o que é feito com os recursos do Estado. A nova democracia exige o fim da cultura do segredo em relação à atuação do Estado. E ao mesmo tempo nós temos que nos preservar dessa invasão da nossa privacidade individual. Essas lutas são globais, não são apenas brasileiras. Há uma linha que vai do 15M espanhol ao Occupy Wall Street em Nova York e aos mídias ninjas no Brasil e apesar das diferenças nacionais de cada país, as lutas são as mesmas.

Bruno Telles concordou com ela: 

_ Nós do mídia ninja temos transparência nas nossas posições. É com essa transparência que nós nos defendemos desse imenso aparato de vigilância e monitoramento dos setores de segurança hoje. O que a gente faz é público. Não há segredo. Então não adianta monitorar. A transparência é o nosso escudo no midiativismo _ disse Bruno Telles, que foi preso, acusado de jogar um coquetel molotov numa das manifestações de rua de 2013, e depois foi solto quando as imagens gravadas em vídeo pelos ninjas desmentiram os policiais e provaram que Bruno não havia feito aquilo.

Vik Birkbeck, jornalista e cineasta inglesa, curadora da Mostra Fronteiras:
_ Quando se fala das manifestações de rua no Brasil, há muito de uma cultura do espetáculo, algo que é feito para a TV, para a grande mídia, que vai repercutir e manipular tudo o que foi filmado e gravado. Como enfrentar essa manipulação? Na Catalunha, o movimento pela independência usava um sistema de comunicação todo criptografado e os sistemas de vigilância não conseguiram decodificar. Isso mostra que para eles o segredo foi importante, foi uma ferramenta fundamental.

Ivana Bentes então respondeu: 

_ São duas coisas diferentes. Fazemos a defesa da privacidade individual, da privacidade nas comunicações individuais. Mas a luta é coletiva. Nós usamos muito o Telegram, que é criptografado e mais confiável do que o WhatsApp… Nós gostamos da privacidade individual. Mas quando a gente está na rua, tudo é público. E nesta hora nas usamos a imagem como proteção. A imagem pode nos proteger, como aconteceu com a acusação de que havia um coquetel molotov na mochila. E não havia. As imagens provaram isto. Então, até a espetacularização das imagens pode ser usada a nosso favor, para construir uma outra narrativa do que aconteceu, para restabelecer a sequência dos fatos. Isto nos protege. Esta transparência nos protege. Precisamos disso nas favelas do Rio, onde denunciar policiais violentos é risco de morte. Precisamos filmar o que eles fazer e jogar nas redes sociais.

Felipe Altenfelder, ativista do Midia Ninja, que também estava presente ao debate, fez um contraponto, para que o debate prosseguisse:

_ Temos dois temas: um é a proteção de dados na internet e a outra é a transparência do midiativismo como proteção. Mas o mais importante é debater a disputa de narrativas. De 2013 para cá, a Mídia Ninja tem se posicionado firmemente nesta disputa narrativa. De lá para c á a criminalização aumentou, o cenário político piorou, Hove um golpe de Estado, os movimentos sociais estão sendo criminalizados, mas a nossa possibilidade de atuação aumentou, a nossa conexão em rede aumentou e há uma potência maior de contranarrativa. É isso o que a gente consegue fazer neste momento difícil, caótico, de disputa de narrativas.

Para Ivana, no Brasil a construção e destruição de reputações é muito importante:

_ Uma das armas na guerra de narrativas é a demonização dos participantes das manifestações de rua, e a criminalização das formas de protestos e do midiativismo.

Alguém da plateia perguntou como é possível resistir a esta criminalizarão da resistência e dos movimentos sociais: 

_ Lutar contra esta criminalização é muito difícil. O Bruno foi acusado injustamente e foram precisos muitos vídeos para provar que Bruno era inocente, Como foi essa experiência? Esse debate deveria ter 20 pessoas aqui. É um tema fundamental. Esse movimento de resistência é internacional, mas aqui se fala muito pouco dessa manipulação da informação. Por que a gente está tão mal informado sobre essa vigilância, essa manipulação?

Felipe Altenfelder então argumentou: 

_ A mídia brasileira está despreparada para encarar o midiativismo. Na Síria eles estão muito preparados, eles trabalham com o algoritmo, descobrem os algoritmos que manipulam e vão atrás de quem fez aquilo. Aqui a gente está na rua, protestando e estamos ainda pouco atentos a esta manipulação dos algoritmos.

Felipe: É verdade que a nossa especialidade não é o desenvolvimento de ferramentas, a criptografia, a segurança das comunicações. Nós buscamos alertar os hackers sobre o que fazemos. Acredito que em termos de ferramentas os poderosos estão muito bem equipados. E há muito tempo existe monitoramento. Mas conseguimos construir uma contranarrativa. E em 2013 nós denunciamos a manipulação da grande mídia, do modo como ela participou do golpe. Aqui surgiu um ecossistema de midiativismo e de midiativismo. E isto nos fez enfrentar o monopólio da grande mídia. Há hoje uma grande força nas redes.  Nós confiamos na transparência como melhor escudo. Nós construímos uma experiência coletiva fundamental, como resistência. Estamos fazendo o enfrentamento e isto é cada dia mais necessário.

Bruno Telles deu um testemunho pessoal no debate no MAM: 

_ Em 2013, quem via a TV achava que os protestos era quebra-quebra. E nos da UERJ saímos para as ruas para mostrar que não era aquilo. Quando fui preso, fiquei muito desanimado. Estava sem forças. E quando surgiram os videos, vi que houve solidariedade, que o coletivo quer proteger quem é inocente, querem vencer esta manipulação que todo mundo percebe.

Ivana Bentes esclareceu que a Mídia Ninja também está investindo na mineração de dados.

_ Nós estamos começando a trabalhar com mineração de dados, com a possibilidade de você saber quem são os influenciadores digitais, ser quantos grupos a Mídia Ninja atinge, e muitas das das ações da Mídia Ninja atingiram o mesmo potencial de público de um Jornal Nacional da Rede Globo. Não é só curtir a página, comentar e compartilhar. Nós conseguimos envolver a nossa audiência. Há um tipo de produção de informação nova e a gente começa a se valer disso nessa guerra de informação. Esta guerra não acontece só na criptografia. Esta guerra acontece nos pontos de influência, no mapeamento das redes, nos mapeamentos dos influenciadores, no enxameamento que permite derrubar uma página e por aí vai… Essa é uma novidade importante na guerra da informação nas redes sociais. E a Mídia Ninja vai se valer dessas ferramentas novas de mapeamento também




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