Texto: Maria Cabeços

Fotos: Brenda Vianna

O longa-metragem Açúcar retrata a discriminação racial nesta terça-feira (10/10) no debate do CCLSR - Cine Odeon NET Claro, mediado pela jornalista e comentarista Flávia Oliveira. A mesa foi composta pelos diretores Renata Pinheiro e Sergio Oliveira, e pelas atrizes Maeve Jinkings e Dandara de Morais. O filme conta a história de Bethânia quem enfrenta seus preconceitos intrínsecos que são postos à tona, quando retorna ao Engenho de açúcar de sua família em um momento em os trabalhadores reivindicam seus direitos.

O debate foi iniciado com a menção de Flávia sobre o elenco principal ser majoritariamente formado por personagens femininos em um contexto de inserção brasileira. “Nessa nossa história, mostra esse Brasil, que a gente ainda vê, em que a herdeira dessa terra vive uma situação inversa das lembranças de sua infância. Então, ela tem que se reinventar em uma questão de autoconhecimento”, conta Renata. “Quanto as personagens femininas, é uma coisa tão natural no filme ter esse protagonismo, porque as mulheres de fato são os agentes transformadores”.

O objetivo do filme, segundo a diretora, fez com que houvesse pressa na conclusão do projeto. “Era uma urgência nossa, porque queríamos registrar, também, esse patrimônio arquitetônico, que é aquele Engenho. Então, foi tudo muito rápido, na verdade. A gente filmou em doze dias”. Renata também conta sobre o processo de criação e produção, além do seu dever, como artista, de divulgar uma mensagem contra o preconceito racial. “Eu precisava falar sobre isso, mas, ao mesmo tempo, não foi confortável”. 

Acrescentou que alguns aspectos podem incomodar pessoas próximas a ela, “tive muito medo, também, porque eu não estou falando da minha família propriamente dita. Eu estou falando da formação da sociedade brasileira, mas, de qualquer forma, são pessoas que eu amo e que podem se sentir ofendidas. A gente tem que ter coragem. Eu não podia deixar de falar sobre isso, porque talvez ofendesse a minha família”.

A atriz expressou sobre o interesse em interpretar Bethânia e como foi a adaptação ao papel, "Esse lugar de desconforto me interessa muito. Quando alguém me pergunta como é fazer um personagem que é mais difícil de você ter empatia, é muito simples, porque eu também sou essa pessoa. Eu sou esse opressor. Em primeiro lugar, eu preciso reconhecer o meu lugar de mulher burguesa e olhar para as minhas feridas, então, ter a chance de pesquisar isso em meu trabalho de maneira muito profunda”. Quanto a Dandara de Moraes: "Eu não tinha o desenvolvimento político e a mente mais madura na época em que filmei, então, eu fiz algumas coisas sem o certo cuidado. As cenas da religião, hoje em dia, eu faria um pouco diferente. Faria um pouco mais de pesquisa”. 

Sergio Oliveira abordou sobre o valor histórico da terra, “ É um filme que retrata a colonização brasileira. Esse dado para mim é tão importante porque a colonização foi feita pra escravidão e a terra tem um valor inegável”. Também afirma que há um vínculo entre a música junto a terra e as situações que ocorrem nela. “Todo o naipe musical também está no sentido da terra em contraposição com uma coisa passageira”.

Por fim, Dandara reflete sobre como tornar a mensagem do filme efetiva. “Rola muito essa discussão de raízes. Pessoas começando a se reconhecer como negros e negras, mas, o que elas querem fazer com isso? Ser negro não é fácil - seja você pobre, seja rica. É muito importante entender essa mensagem que o filme passa, mas tem que aplicá-la. Acho que é uma reflexão do que devemos fazer agora. Eu sei que a indústria do cinema é machista e que a gente toca na ferida, mas e aí? Vão continuar produzindo os mesmos filmes?”. “A verdade é que o filme não faz nada. Talvez em longuíssimo prazo. Ele não faz nada imediato, mas nos provoca reflexões que nos levam a luta”, admite Sergio.




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