Claire Simon nasceu em Londres, mas foi ainda criança para a França, terra de seus pais. Iniciou sua carreira no cinema como montadora e diretora de curtas-metragens, mas foi somente quando ingressou no Atelier Varan, escola de documentário fundada por Jean Rouch, que desabrochou como realizadora. “Eu fiquei muito feliz ao descobrir que podia fazer filmes só com uma ideia, improvisando e filmando eu mesma”, conta. Desde então, a cineasta tem produzido com igual força tanto na ficção quanto no documentário. “São movimentos diferentes. No documentário você procura por uma história. Na ficção, tento entender melhor uma história que conheço ou pensar em como ela poderia se dar”.

Esse ano, ela apresentou no Festival de Locarno dois novos trabalhos, passados no mesmo universo, a Gare du Nord, terceira maior estação de trem do mundo e a maior da França, localizada no coração de Paris. Garde du Nord é uma ficção, enquanto Geografia humana é o documentário que surgiu durante suas pesquisas. “O lugar veio primeiro”, revela. “Não é como uma história que eu poderia localizar aqui ou ali. Antes de tudo queria fazer um filme naquele lugar, tinha certeza que ali existiam muitas histórias”.

A dupla de filmes revela essa essência de seu cinema, que ganha homenagem este ano no Festival com a mostra oportunamente intitulada Claire Simon: Ficção e o Real. Além dos novos filmes, estão sendo exibidos ainda os documentários Custe o que custar e Mimi e as ficções Pegando fogo e As oficinas de Deus. É a oportunidade de o público carioca conhecer um cinema nada baseado em teses. “Em termos da forma do filme, o documentário permite encontrar seu formato de uma maneira muito mais sofisticado, que não é reconhecida”, diz a diretora. “Talvez hoje em dia mais, em festivais, mas de um modo geral se tem a idéia de que o documentário é apenas o assunto, é mais como jornalismo e menos como cinema. Mas para mim sempre foi uma maneira mais livre de se fazer filmes”.

Simon finaliza a conversa apontando o lado político de seus dois novos filmes. Ela explica um pouco da escolha da estação como cenário: “Muitas das pessoas que passam por lá estão longe de suas casas, de seus países. Isso é a globalização. Senti que precisava fazer disso um retrato da França. Lá, algumas pessoas, especialmente da direita, não gostam de estrangeiros. A Gare du Nord é um lugar onde pode se ver essa briga entre um velho país europeu que perdeu seu poder e um novo país, que provavelmente será magnífico”.

Claire Simon estará no Rio até o final do Festival e apresentará a sessão de Garde du Nord hoje (5), às 19h no Estação Rio 1.



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