Depois da Guerra é um filme eletrizante e polêmico. Acompanha a trajetória de um ex-integrante de grupos armados da Itália da década de 1980, que viveu por 20 anos exilado na França e que, de repente, se vê às voltas com a perda da condição de exilado político, prestes a ser extraditado para a Itália e julgado por terrorismo. O filme de Annarita Zambrano mergulha nos bastidores familiares, nas escolhas íntimas feitas por gerações diferentes, nas feridas produzidas pelo ódio que dividiu os italianos na década de 1980, quando o país viveu anos de intensa revolta e violência política.  Na estreia do filme, no Estação Net Rio 5, Depois da Guerra foi muito aplaudido e a conversa com a diretora foi muito animada. Annarita Zambrano fez questão de comentar os dilemas dos personagens de sua trama.



Seu filme fala do tratamento diferente dado por dois países europeus, França e Itália para os crimes da luta armada dos anos 1980…

ANNARITA ZANGANO: O filme fala de dois países: Italia e França. É um drama privado e uma história pública. Os dois países dão soluções diferentes para o drama do protagonista: a França dá asilo político e a Italia quer julgá-lo como terrorista. Mas este não é um filme sobre terrorismo. É um filme sobre a culpa. E este filme trata da culpa italiana, da culpa sobre o modo como enfrentou uma geração que entrou em organizações terroristas. É uma culpa que não foi enfrentada no passado e que agora volta a atormentar os italianos. Cada país tem a sua culpa. Na França, a culpa está ligada ao seu passado colonial e agora estamos vendo os resultados nos ataques suicidas que matam centenas de inocentes. E as gerações posteriores são as que mais sofrem, porque não viveram as circunstâncias do passado e não fizeram aquelas escolhas.

Como as gerações atuais vêem os atentados dos anos 1980?

ANNARITA ZANGANO: As gerações mais jovens na Italia são o que eu chamo de vítimas colaterais do terrorismo. Eu me sinto como vítima colateral porque não vivi os anos do terrorismo, não sou daquela geração, mas sofro as consequências daquelas escolhas. E o que me interessava neste filme era mostrar essa impotência das vítimas colaterais do terrorismo. Italiano. Quando há um drama privado que tem conexão com uma história pública, há vítimas colaterais, que sofrem as consequências das escolhas de outras gerações e que não podem mudar seu destino. Essas vítimas precisam ter força para sobreviver. Este é um filme sobre escolhas infelizes de uma geração que acreditava ter sempre razão e que não conseguia olhar ao seu redor.

É também um filme que critica as escolhas da geração dos anos 1980, que faz uma crítica severa da violência da geração anterior…

ANNARITA ZANGANO: As gerações mais jovens querem viver a própria vida. E para isto precisam “matar o pai”, ou seja, deixar para trás as escolhas da geração anterior, fazer a crítica dessas escolhas. Todos nós pensamos por um momento na ideia de “matar o pai”

E o que fazer para acabar com essa culpa?

ANNARITA ZANGANO: Enfrentar a própria história é sempre essencial para que a culpa não se prolongue. Isto parece algo banal, mas os italianos até hoje não conseguiu enfrentar seu passado e por isto as culpas se prolongam.

Será que esta volta do passado está relacionada ao fato de que a Italia não consegue esquecer e perdoar? Isto tem a ver com o fato de que na Itália foi impossível aprovar uma anistia para esses crimes políticos? Vem daí o ódio?

ANNARITA ZANGANO: Não penso que se trate de ódio, e não foi isso o que impediu a anistia. As razões do Estado e dos grupos armados são sempre ambivalentes. Há uma questão humana e a questão política. A questão humana faz uma pergunta: um homem ainda é culpado 20 anos depois pelo crime que cometeu? A questão política: a Itália julgou um homem culpado e a França não. Mas a família da vítima assassinada não perdoa e diz que ele deve pagar pelo crime que cometeu. Ou seja: a família do assassino diz que é preciso levar em consideração a questão humana. Mas a família da vítima assassinada diz que não se pode ter piedade e que a justiça deve ser feita, mesmo 20 anos depois. No filme, o mesmo personagem  que diz “Mataram meu irmão e por isto não posso ter piedade” ouve, em seguida, uma resposta semelhante: “Mas você também matou um juiz e não pode pedir piedade para o seu crime, mesmo 20 anos depois”

O filme pretende então revirar o passado para expor formas diferentes de ver o conflito humano e político da Itália de 20 anos atrás?

ANNARITA ZANGANO: Há uma ambiguidade no modo como encaramos esse passado, exatamente como acontece na tragédia de Antígona: há a questão humana e a questão política; as razões da família e as razões do estado. O filme quer escavar o passado justamente para ver de onde nasce o ódio. Há uma ruptura insanável, como na tragédia grega. Na Italia, há uma verdade histórica e uma verdade poética, o que aconteceu e o que é inventado a partir do que aconteceu. Os meus personagens inspirados em pessoas reais, mas que são inventados. 

O protagonista do seu filme é alguém que cometeu um assassinato, matou um juiz em meio a um conflito armado entre seu grupo e as forças policiais. Esse protagonista, na sua visão, é uma vítima ou é um herói? 

ANNARITA ZANGANO: O protagonista do meu filme vive uma ambiguidade. Se você pensar que a Itália viveu uma guerra civil, o protagonista é um preso político. Se você achar que o que ele fez foi terrorismo, então ele é um criminoso e deve ser tratado pelo direito penal simplesmente. Preso político ou terrorista? Se houve uma guerra, então ele tem direito a uma anistia. Se houve terrorismo, então ele deve cumprir sua pena, pagar pelo crime que cometeu. Tudo depende do ponto de vista. 

Os atentados hoje na Europa são atos terroristas? Ou poderiam ser vistos como atos de guerra?

ANNARITA ZANGANO: Tudo depende do olhar. Os argelinos que cometeram atentados na França acreditam que estão lutando numa guerra pós-colonial. Na Italia, a Justiça não pensa em anistia porque não acredita que houve uma guerra civil no passado, mas sim grupos terroristas que cometeram crimes abomináveis. Outra vez: tudo depende do ponto de vista. E foi esta ambiguidade que o meu filme quis trazer para o público pensar hoje, muitos anos depois.




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