As diretoras de Istambul: Crônica de uma revolta, as turco-alemãs Biene Pilavci e Ayla Gottschlich, estiveram no Pavilhão do Festival  e conversaram sobre a produção de seus documentário, que fala sobre as revoltas na capital na Turquia em 2013.

Como surgiu a ideia de pegar uma câmera e começar a registrar as manifestações em Istambul em 2013?

Ayla - Quando começamos, a mídia turca em geral não estava mostrando o que realmente estava acontecendo. A mídia alemã ainda mostrou parcialmente o que acontecia, mas uma semana depois. Mas com as redes sociais as notícias correm rapidamente, e toda a comunidade turca pôde ver e se informar sobre o que acontecia. Como temos essa forte ligação com a Turquia, nos interessamos em acompanhar de perto para saber o que estava acontecendo. E como somos cineastas começamos a fazer o filme.

Vocês se consideravam cineastas fazendo um documentário ou manifestantes?

Ayla - Nós não conseguimos fazer essa distinção. Estávamos todos lá.

Biene - Podemos dizer que inicialmente éramos observadoras, mas cada vez mais fomos fazendo parte de tudo aquilo.

No Brasil, durante as manifestações de 2013, boa parte dos manifestantes dizia “não” para a presença de jornalistas das grandes corporações de TV, jornais e comunicação em geral. Algumas vezes estes eram impedidos com violência de fazerem a cobertura das manifestações, tanto pelos manifestantes quanto pela polícia. A cobertura direta do que acontecia nas ruas era feita pela chamada “mídia independente”. Pesquisando sobre isso a gente percebe que o mesmo aconteceu em boa parte das manifestações pelo mundo. Na Turquia aconteceu de forma semelhante?

Ayla - Não acho que aconteceu da mesma forma. Os manifestantes estavam muito felizes porque estávamos lá. E como eles sabiam que nós vínhamos de fora da Turquia, queriam mostrar para o exterior o que estava acontecendo. Acho até que eles estavam agradecidos. Muitos não queriam mostrar o rosto porque estavam com medo. Nós acompanhamos em torno de quatro ou cinco pessoas durante as filmagens que resistiram muito em mostrar o rosto por medo do que poderia acontecer após a exibição pública do filme.

Alguns analistas interpretam as manifestações que eclodiram pelo mundo após a crise de 2008 como uma espécie de “indignação globalizada”, um fenômeno que ocorreu em escala global, mas cada uma com a sua particularidade. Mas parece ter havido pontos em comum, como a negação de instituições públicas e privadas, como, por exemplo, os governos, as representações políticas tradicionais, as corporações midiáticas, dentre outros. Como vocês analisam isso no caso da Turquia?

Biene - Os manifestantes se indignavam com o que estava sendo feito com o país. Culpavam e gritavam para que os responsáveis tivessem vergonha. Não só pelas redes sociais. Eles saíam de suas casas e iam para as ruas. E eles culpavam as emissoras de TV, os jornais e a mídia em geral por não fazerem nada. Mas, apesar disso, os manifestantes tiveram o apoio das pessoas comuns. E eles ainda são apoiados.

Ayla - Tem muita corrupção na Turquia. E eles corrompem e pressionam a grande mídia. E a mídia turca tem até tentado se posicionar contra o governo nesse momento.  Mas existem muitas restrições e pressão. E todos os dias muitas pessoas ainda perdem seus empregos e são presas. Mas as redes sociais tem ajudado a mostrar tudo isso. Elas questionam o que tem sido mostrado nos jornais e nas TVs e questionado “Ei, o que vocês estão mostrando? Vocês estão loucos?”. E logo depois alguém posta no Youtube o que realmente aconteceu e todos podem ver. Isso não acontecia dez anos atrás. Você não pode mais simplesmente fechar os olhos.

Por Fernando Flack




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