A intolerância religiosa é o ponto central do documentário Fé e Fúria, de Marcos Pimentel, tema do segundo debate de sexta-feira (13/12/19). O mediador Marcio Jagun considerou o filme um documento etnográfico, necessário para autoridades e para a sensibilização da sociedade. A motivação de Marcos foi procurar entender o porquê da existência de um desequilíbrio de forças religiosas em espaços onde, antes, a diversidade religiosa predominava.

Desde o início, o diretor e o produtor Leo Ayres observaram a complexidade da discussão: optaram então por partir de um micro para um macrocosmo, abordando tópicos como tráfico, racismo e política nacional. As filmagens começaram em 2016 e foram retomadas em 2018, logo antes das Eleições Presidenciais no país. Ainda que Leo considerasse a estreia do documentário urgente, sentia medo em lançá-lo por conta das relações com a polícia, milícia e personagens políticos. A coragem dos realizadores foi reconhecida pela plateia e por Jagun, que os tranquilizou: “o filme é carregado de Axé, ninguém segura Axé”.

Também presente na mesa estava Cosme (um dos personagens de Fé e Fúria), um pastor da Assembleia de Deus que mobiliza discussões recorrentes acerca do preconceito religioso. Cosme, que passou a infância e a juventude sendo proibido pela mãe evangélica – antes umbandista – a participar de festas ligadas a outras religiões, compreendeu aos 26 anos sua identidade: preto, favelado, empobrecido. Daí em diante, trabalhou para derrubar uma enorme barreira com a qual se deparava: o preconceito. O pastor apontou que o ato de não aceitar o corpo do outro é um enorme reflexo da escravidão do Brasil; em sua compreensão, as mesmas pessoas negras que sempre sofreram com um longo histórico de opressão racial, hoje oprimem outras por intolerância religiosa. Para além disso, o que existe é um racismo religioso, recorrentemente orientado contra a fé de matriz africana ou afro-brasileira. 

Marcio indagou-se sobre quem seria o diabo nas religiões de matriz africana, se não há nem mesmo uma figura que represente a destruição. Já Cosme considera que cada um de nós carrega um “demôniozinho” dentro de si. Outra espectadora considerou que o filme é um retrato do que se vive hoje no Brasil e Marcos apontou que seu objetivo é que possamos aprender a saborear a diversidade do Outro, entendendo que há sempre um diálogo possível. Afinal, considera a laicidade um importante elemento da democracia.

Por: Marina Martins

Foto: Mariana Franco




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