Por Carlos Alberto Mattos

O assunto não é nada agradável, mas poucos são tão oportunos quanto este no Brasil de hoje. INTOLERÂNCIA.DOC sensoria algumas bolhas de ódio na cidade de São Paulo. A investigação de Susanna Lira se faz em dois níveis: acompanhando ações da Decradi, a delegacia da Polícia Civil destinada a combater a violência social, e entrevistando vítimas ou parentes de vítimas de crimes de ódio. Da cadeia de vinganças entre torcidas organizadas de futebol a choques entre punks antifascistas e skinheads, passando por espancamentos e assassinatos homofóbicos, o filme procura mostrar os mecanismos de propagação da intolerância numa sociedade crescentemente dominada pelo preconceito, o sectarismo e os discursos da violência.

Em pauta também as vozes que resistem a esta onda de lodo. Um policial ex-punk, uma cantora trans que virou ativista depois de sofrer uma agressão gravíssima e um dito ex-skinhead que se afirma eleitor de Jair Bolsonaro são alguns personagens que dão agudeza ao documentário.

O estilo incorpora tonalidades de thriller policial, com música atmosférica de Tito Gomes. Um impactante material colhido de câmeras de vigilância e da internet é complementado por animações para ilustrar os exemplos de intolerância, termo este muito bem definido por um dos entrevistados como “o preconceito transformado em ação”. O panorama é assustador e avança do mais supostamente lúdico (o futebol) para o mais pavorosamente ideológico. A coragem de Susanna Lira em mexer nesse vespeiro é algo digno de nota nessa retomada do documentário político brasileiro.




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