O cineasta argentino Pablo Giorgelli trouxe ao Festival do Rio seu segundo longa-metragem, Invisível, feito sete anos depois do primeiro, Las Acacias, de 2011. No primeiro longa, Giorgelli acompanhava o trajeto de um motorista de caminhão e de seus muitos problemas familiares e ganhou o prêmio Câmera de Ouro em Cannes em 2011. 

Agora, em Invisível, ele acompanha os dilemas de uma jovem, de classe média baixa, trabalhado de uma pet shop, 'as voltas com uma gravidez inesperada. Em Invisivel, Ely tem 17 anos e mora no bairro da Boca em Buenos Aires. Ela cursa o último ano do ensino médio e trabalha em uma pet shop para completar a renda familiar. Ao descobrir que está grávida de Raúl, dono da pet shop, seu mundo interno colapsa. Enquanto tenta manter su­­­­a rotina diária como se nada tivesse acontecido, ela é tomada pelo medo e a angústia. A sociedade que a pressiona e o estado de saúde frágil da sua mãe a isolam e a obrigam a amadurecer precocemente. Tomar a decisão que mudará sua vida para sempre lhe permitirá ter um novo começo. O filme esteve na Mostra Horizontes do Festival de Veneza 2017.​ E está na Premiere Latina do Festival do Rio 2017. Entre uma sessão e outra do seu filme, Giorgelli deu a seguinte entrevista:

De onde veio a inspiracão para criar o enredo do filme Invisível?

Para mim, o filme Invisivel veio de uma mescla de coisas. Por um lado a questão familiar. Há algo neste momento de minha vida que me interessa nas relações familiares. Isto tem a ver com as conversas de pais e filhos, de mães e filhos. E este tema familiar já havia transitado na minha película anterior, Las Acacias. E por outro lado tem a questão social, porque a desigualdade social é tremenda e é uma das primeiras causas de conflitos. A crise econômica está presente no entorno, no fora de campo muitas vezes, através daquilo que se escuta, daquilo que se passa atrás das cenas, fora do campo da câmera. E está presente também no conflito interior, nas decisões que a protagonista de Invisível tem que tomar, sobretudo com sua gravidez inesperada. O problema da desigualdade permanece sendo uma ferida em nossos países latino-americanos

De onde vem o título do seu filme, Invisível?

Eu diria que Invisível é a classe trabalhadora de um país latino-americano. O filme se passa na Argentina, mas poderia se passar no México, no Peru, no Chile, no Brasil. O título do filme tem a ver com a invisibilidade das pessoas comuns, anônimas, qualquer um de nós que vive e trabalha e tenta sobreviver. Invisível é o que passa desapercebido ao mundo dos adultos. Invisível sou eu como diretor quando me ponho a serviço da história e dos personagens, fazendo com que a minha câmera não seja percebida e levando o espectador a ser testemunha quase invisível daquela trama. E invisivel é também o que está fora de campo, aquilo que aponta para a importância do que não se vê, aquilo que escutamos e não vemos. Invisível é também esse bebê que se espera... O título do filme tem muitos significados. Era o título provisório de trabalho do filme e acabou sendo o título definitivo.

Como está o cinema argentino agora? Vive um bom momento?

Vivemos um momento ambíguo. Por um lado há muitas produções. Temos quase 150 produções por ano, o que é muito bom, e há uma produção com uma heterogeneidade muito grande, com linguagens bem diferentes. Mas agora corremos o risco de ver as fontes de financiamento se reduzirem drasticamente. Vivemos um tempo muito inseguro.

Você conhece o cinema brasileiro?  Como é a recepção do cinema brasileiro na Argentina?

Gosto muito do cinema brasileiro. Mas temos um problema de distribuição. Vemos os filmes brasileiros em festivais, com esse Festival do Rio. Gosto muito dos novos cineastas, como Julia Murat, Marco Dutra, Juliana Rojas... Temos muitos bons momentos no cinema latino americano. Nós tivemos muitos filmes importantes no passado e agora mantemos uma qualidade muito alta. Gosto muito da produção atual.

De quem você se sente próximo no cinema argentino, em termos de linguagem cinematográfica?

Gosto de muitas películas que têm uma linguagem cinematográfica distinta da minha. Gosto muito de clássicos como os filmes de Solanas e da produção mais recente de uma Lucrecia Martel... Acho que o importante é ter uma diversidade grande de linguagens. Como a que existe hoje no cinema argentino e também no cinema brasileiro. Temos uma grande cinematografia na América Latina e precisamos utar por um diálogo maior entre os cinemas nacionais de nossos países, por uma distribuição melhor dos filmes por este vasto continente.

Texto e Foto: Marilia Martins



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