Por Sabrina D. Marques (Talent Press Rio)


‘‘O Cinema Novo não é uma questão de idade, é uma questão de verdade.’’

Paulo Cesar Saraceni


Cinema Novo situa-nos no lugar de um levantamento de hipóteses: o que significa que surja, em 2016, um documentário homónimo ao movimento que descreve?

Na sua quinta longa metragem, Eryk Rocha relaciona-se com a própria ascendência e constrói um mosaico afectivo que dá voz aos intervenientes do Cinema Novo Brasileiro. Estamos perante um documentário e, simultaneamente, perante um muito livre filme-ensaio que, solto de intenções explicativas, cruza testemunhos em voice-over com excertos indispensáveis do movimento. A velocidade deste encadeamento rítmico dá-nos a sentir hoje a energia do próprio Cinema Novo: sucessivamente, jovens figuras rasgam o ecrã a correr, emblemas da precursora vontade dos protagonistas do Cinema Novo de agitar as consciências de um país que, nas décadas de 50 e 60, construía, na profusão das várias expressões artísticas, um espelho para a realidade do seu contexto social e económico. A cisão inaugurada pelo Cinema Novo tem o experimentalismo de um laboratório progressivo, que tanto absorve rapidamente as influências culturais exteriores, como funda uma liberdade multiforme: algures entre o documentário e a ficção, entre o sagrado e o profano, entre o imaginário e o real. É o cinema brasileiro de hoje que aqui se examina: onde está esta energia interventiva face à urgência da realidade presente?

Apesar do referente historicamente definido, Eryk Rocha revitaliza o passado com um exercício aberto que reflecte transversalmente sobre a própria natureza da cinefilia contemporânea: apropriando-se de imagens que não legenda, vinca a pessoalidade do seu gesto ao organizar visualmente blocos que, para si, definem pilares essenciais da identidade do Cinema Novo. O resultado é um retrato de conjunto de um grupo de cinéfilos que, tão distintos entre si, se uniram para viabilizar esforços e meios, encarando as possibilidades do cinema enquanto veículo de um compromisso ideológico com fundações convergentes.

Descentrando-se do habitual foco sobre os realizadores, Eryk Rocha desmonta o dinamismo de uma estrutura colectiva, particularmente organizada da produção à distribuição. Se o arquivo faz ressurgir a voz do seu pai, Glauber Rocha, ícone maior do movimento, mapeamo-nos entre outros nomes indispensáveis: Nelson Pereira dos Santos, Carlos ‘Cacá’ Diegues, Joaquim Pedro, Gustavo Dahl, Walter Lima, Maurício Copovilla, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman, Roberto Farias, etc. E destes ‘‘fordianos e rosselinianos’’, destes acérrimos ‘‘de Eisenstein e da Nouvelle Vague’’ ouvimos acerca da agilidade de um cinema que, feito por amigos, despertou o panorama internacional para o cinema brasileiro. Perseguindo um princípio de verdade são, apesar do vanguardismo formal, filmes que interpelam no imediato e que, em conformidade com os mínimos meios envolvidos, se relacionam com as faltas que denunciam a um país sobre o qual desejam agir. Não podemos, em 2016, prosseguir na enérgica simplicidade do lema ‘‘uma câmara na mão e uma ideia na cabeça’’?

Com um claro sentido de risco, nesta reflexão acerca do legado do Cinema Novo na história do cinema brasileiro, Erik Rocha enfrenta o mesmo dilema político dos cineastas que retrata e coloca-se nessa fenda, problematizada pelo filme, onde as formas revolucionárias competem com a eficácia da comunicação. Contra o mero débito informativo, demonstra como, após tantos limites cruzados pela inventividade do passado, a recepção do cinema experimental é, ainda hoje, condicionada pelas linguagens dominantes. Ouve-se em Cinema Novo: ‘‘Nunca ganhámos a guerra. Não podemos deitar em cima da vitória. É uma guerra aberta.’’ E Eryk Rocha está nas trincheiras. 




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