O empoderamento feminino não poderia ficar de fora do Festival do Rio 2016 e está presente em filmes como E a Mulher Criou Hollywood (Et La femme créa Hollywood no título original, ou Women who run Hollywood, título internacional), dirigido por duas irmãs francesas, Clara e Julia Kuperberg. De acordo com as diretoras, na indústria cinematográfica americana atual, apenas 8% dos blockbusters e 20% dos filmes independentes são dirigidos por mulheres. O que pouca gente hoje se lembra é que, até 1925, metade dos filmes produzidos em Hollywood era dirigido por mulheres. E esta é exatamente a pergunta que não quer calar, quando se trata do desenvolvimento de uma das indústrias mais poderosas do mundo contemporâneo: como e por que as mulheres foram perdendo protagonismo no cinema? O documentário E a Mulher Criou Hollywood, parte da Mostra de Filmes Documentários deste ano, busca respostas para estas perplexidades de quem estuda cinema. 

As diretoras francesas são especialistas em história do cinema e já assinaram mais de 30 filmes sobre a Era de Ouro de Hollywood, entre as décadas de 1920 e 1960, quando a indústria americana ditava o mercado e os grandes estúdios como Metro Goldwyn Meyer, Paramount, 20th Century Fox e Walt Disney acumularam poder e prestígio mundial. Clara e Julia, aliás, assinaram documentários famosos como This is Orson Welles e John Ford et Monument Valley. E descobriram que, mesmo neste período de crescimento exponencial da indústria, mulher alguma chegou a acumular o poder de Mary Pickford, que em 1919 se juntou a JW Griffith, Douglas Fairbanks, Charlie Chaplin para fundar a United Artists, um dos estúdios mais celebrados da história do cinema.

Assim, o documentário das duas irmãs francesas desfila nomes hoje esquecidos como Lois Weber, Francis Marion, Mabel Normand, Anita Loos, todas mulheres poderosas do cinema anterior à crise de 1929. Os motivos pelos quais as mulheres perderam o poder em Hollywood são um dos principais temas do roteiro. Boa parte dos argumentos explica a disputa por um mercado de trabalho cada vez mais promissor por profissionais desempregados na Grande Depressão americana. Eles entraram na disputa e elas foram aos poucos perdendo espaço por conta da dupla jornada de trabalho. O cinema, que antes era um trabalho para complementar renda, tornou-se atividade profissional full time num negócio cada vez mais ambicioso. Assim surgiu uma nova indústria e um novo espaço para homens exercitarem um domínio cada vez mais exclusivo, em que as diferenças de gênero resultam em menores oportunidades para protagonistas mulheres e em diferenças salariais gritantes, que atualmente inspiram a fúria de atrizes de gerações diferentes como Meryl Streep, Patricia Arquette, Jennifer Lawrence, entre tantas outras.

Para as diretoras francesas, o cinema americano só agora começa a questionar este desequilíbrio entre remuneração e oportunidades para homens e mulheres, o que o cinema europeu já criticou há tempos, desde a Nouvelle Vague da década de 1960, quando filmes de Jean-Luc Godard, François Truffault, Agnès Varda e tantos outros abriram caminho para uma estética cinematográfica mais atenta às questões femininas e às oportunidades para mulheres, que hoje têm presença marcante na direção cinematográfica, especialmente na França. O que certamente falta ainda é abrir as portas dos prêmios de festivais para a igualdade entre os gêneros. É bom não esquecer que até hoje apenas uma mulher ganhou o Oscar de melhor direção (Kathryn Bigelow, por The Hurt Locker, em 2008) e também apenas uma mulher recebeu a Palma de Ouro de direção em Cannes (Jane Campion, por O Piano, em 1993).

E A MULHER CRIOU HOLLYWOOD
(Et La femme créa Hollywood)
de Clara Kuperberg, Julia Kuperberg. Com Paula Wagner, Ally Acker, Cari Beauchamp, Robin Swicord, Lynda Obst. França, 2015. 52min, digital.
O primeiro filme falado foi dirigido por Alice Guy. O primeiro filme colorido foi produzido por Lois Weber. Frances Marion escreveu roteiros para a estrela de Hollywood Mary Pickford e ganhou dois Oscar na categoria. Dorothy Arzner, por sua vez, foi a diretora mais poderosa da industria cinematográfica americana. Mas o que todas elas tem em comum? Todas são mulheres e todas foram esquecidas. Mesmo sub-representadas, as mulheres foram muitas vezes protagonistas nos bastidores de Hollywood. Este documentário se propõe a descobrir a história ainda não contada dessas heroínas. Cannes 2016. Este filme será exibido na sessão do filme As vidas de Thérèse
Filme Doc - (LEP) - 14 anos



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