O segundo debate de domingo (15/12/19) no Cinema Odeon foi sobre Pureza, uma ficção dirigida por Renato Barbieri e inspirada em episódios reais. O longa conta a história de Pureza, uma mãe em busca de seu filho que partiu para o garimpo na Amazônia. Em sua trajetória, depara-se com um sistema de trabalho rural escravo. Na mesa mediada pelo crítico Filippo Pitanga, estavam presentes o diretor, o produtor Marcus Ligocki Jr. e os atores Dira Paes, Mariana Nunes, Claudio Barros, Matheus Abreu e Sergio Sartore.

Renato conta que ao conhecer Pureza para falar sobre a ideia do filme, ela disse: “Bem que um pastor me falou: os olhos do mundo vão te ver. Agora eu entendo, os olhos do mundo são o cinema”. Dira, por fazer parte de uma ONG de combate ao trabalho escravo, já conhecia a história de Pureza, então quando foi chamada para viver a personagem, sentiu-se convocada ao papel. Comentou sobre a veracidade da produção, que considera estar impressa na tela.

Pureza foi gravado no Pará, em locais reais, com grande parcela do elenco paraense – parte dele estava presente na plateia do Cinema – e com a presença de ex-trabalhadores escravos. Para Filippo, Pureza é uma das maiores interpretações de Dira, construindo uma relação de"mãe-coragem de um filho-pátria". 

Mariana não conhecia a história e afirmou que a alma de Dira está inserida no filme. Como Matheus também não conhecia, Pureza mobilizou nele uma reflexão acerca da importância e do potencial do cinema em trazer à tona histórias legitimamente brasileiras, desconhecidas por tantas pessoas. Claudio - que vive em Belém - foi chamado para fazer a preparação dos atores que interpretariam os trabalhadores rurais.

Sentiu-se provocado por viver num estado onde o trabalho escravo ainda é um problema. O preparador conheceu os trabalhadores reais junto com os atores. Sobre isso, Sergio (um dos vilões do longa), revela que ainda se sente tocado pelas memórias das filmagens e confessa um mal-estar ao ver-se na pele do personagem; por outro lado sente-se feliz de ter colaborado com o trabalho.

Diversas questões sobre a temática do filme surgiram da plateia, muito participativa, inclusive comentários acerca do uso de uma linguagem acessível a diversos públicos. Renato defendeu o cinema popular de qualidade e Dira adicionou: "e com conteúdo". Pureza é um filme é de entretenimento por explorar a jornada de uma heroína, mas levanta uma questão urgente como a do trabalho escravo contemporâneo - regime muitas vezes desconhecido pela população brasileira. 

Na plateia estava presente Elisa Lucinda: a artista aproximou o filme de um documentário e o considerou como parte de um “Novo Cinema Novo no Brasil”, por trazer uma história do Brasil contemporâneo à tela. Ao seu ver, na tela emergiu amor e ressalta a potência revolucionária do cinema: “Me sinto honrada de ser brasileira estar fazendo parte desse momento com vocês. Salve o cinema brasileiro!”. 

Filippo encerrou a mesa reforçando alguns dados presentes no filme em torno do trabalho escravo contemporâneo e falando sobre o fato de que vários daqueles personagens sobreviveram e continuam fazendo transformação em vida. Mostrar histórias como essa é uma grande motivação para o desenvolvimento do cinema brasileiro.

Por: Marina Martins

Foto: Mariana Franco



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