Aconteceu nesta tarde (segunda, 12), no Cine Odeon, a exibição de Introdução à música do sangue, novo filme de Luiz Carlos Lacerda, mais conhecido como Bigode. Em mais um Cine Encontro da mostra Première Brasil, a sessão foi seguida de um debate com a presença da equipe e mediado pelo crítico de cinema Rodrigo Fonseca.

O longa é adaptado de um argumento incompleto do escritor Lúcio Cardoso, e conta a história de uma família no sertão de Minas Gerais que vive entre desejos frustrados e uma iminente chegada do progresso, marcada pela instalação da energia elétrica na residência. Maria Isabel (Greta Antoine) mora com Uriel (Ney Latorraca) e Ernestina (Bete Mendes) sem saber ao certo seu parentesco com eles. Quando conhece o peão Chico (Armando Babaioff), seu mundo estático e reprimido se abala.

Fonseca começou o bate-papo perguntando a Bigode como surgiu a ideia de adaptar Cardoso. O cineasta contou que o argumento foi entregue a ele pelo próprio autor, que havia sofrido um AVC. Era desejo dele, segundo sua irmã, que Bigode adaptasse o trabalho. O texto acabou se perdendo, sendo recuperado apenas em 2012, quando o diretor desenvolvia um projeto de documentário sobre Cardoso. Contendo apenas o começo e o final da trama, foi retrabalhado por Bigode, que acrescentou grande parte do segundo ato e adicionou o personagem Chico, procurando manter a característica dos romances de Cardoso de apresentar sempre um indivíduo que adentra a narrativa e traz conflitos.

Quando questionado por Fonseca sobre o uso abundante do silêncio no longa, Bigode afirmou que foi a melhor forma de expressar através da linguagem cinematográfica a escrita de Cardoso, famoso por sua introspecção psicológica. Nesse ponto, saudou especialmente os atores por suas performances corporalmente expressivas, essenciais para a transmissão eficaz de certas mensagens da narrativa.

A atriz Greta Antoine disse que adorou trabalhar com Bigode e Latorraca, e que o mês que passou na fazenda em Abaíba, interior de Minas, foi o mais feliz de sua vida. Paulistana de nascença, acrescentou que se sentiu imediatamente à vontade no ambiente rural por uma “questão de sangue”, uma vez que sua família vem de uma região semelhante.

Armando Babaioff contou um pouco sobre sua experiência na construção do personagem. Segundo ele, o Chico do roteiro era completamente diferente, sendo modificado pouco a pouco depois da chegada da equipe à fazenda. “O roteiro é um pretexto para a criação”, afirmou o ator. Revelou, por exemplo, que ao ver um haras próximo à fazenda, resolveu que Chico montaria a cavalo. Decidido a passar bastante tempo com os peões, Babaioff saiu para trabalhar com eles na contagem de gado, voltando incapaz de andar após seis horas em cima de um cavalo. Na filmagem do dia seguinte, Bigode elogiou a atuação física do ator. “Não tinha como ser de outro jeito”, brincou Babaioff.

Também presente estava o diretor de fotografia, Alisson Prodlik, que explicou que a iluminação do filme privilegiou a luz natural, sendo três lâmpadas de 60W as únicas fontes artificiais. Fonseca relacionou esse estilo de cinematografia à filmagem documental, muito presente na carreira de Bigode em colaboração com Prodlik. O cineasta respondeu que, mesmo neste filme de ficção, existe uma documentação emocional dos personagens, e que a câmera exerce um papel fundamental ao procurar sempre privilegiar tais momentos.

Por fim, Bigode foi enfático ao caracterizar seu cinema como um resgate dos clássicos brasileiros de Nelson Pereira dos Santos e Humberto Mauro. Satirizando as produções nacionais que se inspiram em obras norte-americanas e europeias, afirmou: “Não quero saber de Oscar, quero saber de Oscarito”.

Texto: Vinícius Spanghero

Fotos: Lariza Lima




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