Por Fernando Flack

Filho de imigrantes turcos, Cem Kaya nasceu na Alemanha e cresceu assistindo a um tipo de filme que copiava as histórias e personagens dos filmes americanos e europeus. Esses filmes ficaram conhecidos como Yeşil Çam, e neles era possível encontrar o mesmo herói usando a roupa do Super-Homem, o cinto do Batman e a máscara do Fantasma.

Filho de um dono de videoclube na cidade alemã onde foi criado, Kaya tornou-se um profundo conhecedor desses filmes, e acabou escrevendo a sua tese de mestrado sobre o Yeşil Çam. Agora, lança o seu longa Remake, Remix, Rip-Off, compartilhando com os espectadores o seu vasto conhecimento sobre o cinema turco das décadas de 1960 a 1980.

Cem morou e estudou em São Paulo no início dos anos 2000 e fala um português perfeito. Aproveitando a sua estadia no Rio de Janeiro para apresentar o seu filme, o diretor conversou com o sote do Festival do Rio.

Como surgiu a ideia de fazer Remake, Remix, Rip-Off?

Eu nasci na Alemanha e lá nós crescemos assistindo a filmes turcos. Nos anos 1960, houve uma grande migração da Turquia para a Alemanha que chamamos diáspora turca. A única ligação que a gente tinha com a cultura turca eram filmes e vídeos do final década de 1970 e início dos 1980. Em todas as cidades alemãs em que vivem imigrantes da Turquia existem videoclubes turcos.

Meu padrasto era proprietário de um deles, e eu assistia a esses filmes repetidas vezes. É daí que vem o meu conhecimento tão profundo sobre isso. E quando eu era estudante, em 2003, desenvolvi a ideia de escrever teses e teorias sobre o motivo de existir tantas cópias no cinema turco. Este tipo de cinema é chamado de Yeşil Çam, que quer dizer “pinheiro verde” em turco. Era o nome da rua onde os produtores se reuniam. É como se fosse a Boca do Lixo em São Paulo. Como eu conheço esses filmes desde criança, fiz essa tese de mestrado e, depois, esse documentário sobre eles.

E qual foi a herança que esse momento do cinema turco deixou?

O tipo de filme criado pela Yeşil Çam é feito, ainda hoje, pelas séries de TV na Turquia. Lá existe um dos mais dinâmicos mercados de séries do mundo. É uma indústria que movimenta dois bilhões de dólares por ano.

A partir dos anos 1980, a maioria dos produtores e diretores de cinema e televisão adotaram o modo de fazer cinema da Yeşil Çam. Eles levavam dez dias para fazer um filme. Hoje os produtores levam uma semana para fazer um episódio de uma série. Eles trabalham rápido, muitos acidentes acontecem, ficam muito exaustos e algumas pessoas até morrem. Tudo isso pra entregar os episódios a tempo.

A gente fala não só dos momentos divertidos, mas também das condições de trabalho. Porque tudo o que você vê nos filmes dessa época é real. Se o ator precisava saltar pela janela, ele saltava. Se fosse necessário um soco, ele dava ou levava o soco.

Vendo como hoje é comum fazer cópias, montagens ou mashups, seja no cinema, na música e, até, na literatura, você diria que o cinema da Yeşil Çam estava, de uma certa forma, na vanguarda?

Algumas pessoas costumam pensar isso. Eu não sei se era bem vanguarda. Acho que hoje tudo está em uma espécie de loop. Talvez naquela época não fosse diferente. Hoje tem muita cópia, e até cópia de si mesmo. Acho que tem muito mito em torno do “original”. Mas não existe “original”. É tudo influência. 

O que se pode definir é que eles estavam aprendendo a fazer cinema. Não existia escola de cinema na Turquia. A única maneira de se aprender a fazer filmes naquela época era assistindo. 

E como está o cinema turco hoje?

Hoje existe um cinema muito popular que produz mais de cem filmes por ano. Fazem muito sucesso, mas eu não aprecio muito. Existem alguns movimentos, que eu não sei se posso chamar de “movimento”. Acho que são mais artistas que tem o mesmo estilo.




Voltar