A mostra Première Brasil: Fronteiras exibiu neste sábado (14/12/19) o documentário O mês que não terminou, acompanhado de um debate com os diretores Francisco Bosco e Raul Mourão, mediado pela jornalista e biógrafa Karla Monteiro. O filme procura construir um panorama dos processos político-sociais brasileiros desde os processos de 2013 até as últimas eleições presidenciais, contando com inserções de instalações artísticas na composição narrativa.

Karla iniciou a mesa compreendendo o filme como um exercício de escuta e considera que a obra se tornará mais importante com o passar dos anos; pergunta a Francisco qual fora a premissa instigadora d'O mês que não terminou. O diretor responde que o filme nasceu de um artigo por ele publicado no jornal Folha de São Paulo acerca de um balanço dos 5 anos de junho de 2013: "o que mais me interessou no filme foi testar as premissas do artigo, submetendo algumas delas ao contraditório de outras perspectivas. Havia a ideia de trabalhar com alguma polifonia".  Ao seu ver, ao documentário pretende contrapor-se ao que define como uma "lógica de grupo" em que não se aceitam dissensos de discursos políticos, trazendo complexidade ao debate.

A mediadora aprofunda, questionando uma predominância de entrevistados do eixo Rio-São Paulo; indaga também sobre as intervenções artísticas subversivas de Raul. Francisco coloca que o documentário procura atender a um fator de representatividade, incluindo falas de pessoas trans, negras e integrantes de movimentos sociais. Por um lado, porém, pontua que muitos dos acontecimentos abordados n'O mês que não terminou têm como protagonistas as cidades de Rio e São Paulo; por outro, o baixo orçamento limitou as rotas possíveis de entrevistados. 

Com relação aos objetos artísticos, Raul Mourão comenta que sua pesquisa fora orientada por um olhar de curadoria: "foi uma escolha pela potência poética das imagens. Esse gesto de pegar uma produção que normalmente está num museu, numa galeria de arte para um público muito restrito me interessava". Define as inserções como um gesto de sampleamento, remixagem. Francisco complementa que o filme segue um conceito de autocontenção (ou comedimento) e por isso não assume a palavra "golpe" ao tratar do impeachment de Dilma Rousseff.

Uma espectadora provoca interrogando a escolha narrativa de utilizar um narrador em voice-over, que não aparece em tela. "Eu não considero que uma voz em off seja uma voz que determina o sentido das coisas. (...) O off é a minha voz, é o que eu penso, é o autor, é o modo como eu costuro. Isso não é ser autoritário, é organizar um discurso", rebate Francisco. O debate é finalizado com uma pontuação de Francisco na defesa do exercício da autocrítica, seja política, seja econômica ou mesmo para o eleitorado.

Por: Mariana Ísis

Foto: Luiza Grün



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