Nesta última sexta-feira (14), o CCBB exibiu o filme Para ter onde ir, que integra a mostra Novos Rumos. O longa acompanha três mulheres - Eva, Melina e Keithylennye - em uma viagem de carro pelo estado do Pará, cada uma com suas motivações e esperanças em relação ao destino que as espera. À sessão, seguiu-se um debate com mediação da jornalista Flávia Guerra e que contou com as presenças da diretora Jorane Castro, da montadora Joana Collier, do produtor Ofir Figueiredo e das atrizes Lorena Lobato, Ane Oliveira e Keila Gentil.

Guerra deu início à conversa ressaltando que a obra de Castro foge dos clichês ao mostrar um Norte de cores melancólicas, muito diferentes do característico verde-vivo da Amazônia de cartão-postal. Questionada sobre a origem da ideia, a diretora apontou que essa é sua terceira obra de ficção protagonizada por um trio de mulheres e justificou tal escolha por ser capaz de construir personagens femininas com mais densidade, ao passo que os homens sobre os quais escreve costumam lhe parecer caricatos.

A seguir, as atrizes comentaram seus respectivos papéis. Lobato afirmou que Eva é uma reação a um Norte muito machista, ou seja, uma mulher forte que teve que se endurecer emocionalmente para encarar a sociedade. Já Gentil definiu Keithy, uma ex-dançarina de tecnobrega, como expansiva, mas coberta por uma autoproteção decorrente de sofrimentos de seu passado, sublinhando seu dilema entre criar a filha sozinha ou retomar o sonho da música. A atriz, que de fato é musicista e segue em carreira solo após deixar o grupo Gang do Eletro, ressaltou que passou por uma situação parecida mas que, ao contrário de Keithy, contou com o apoio da família para persistir na vida artística. Por fim, Oliveira destacou Melina como a mediadora do grupo, uma pessoa leve e sexualmente livre que acredita em discos voadores e astrologia para preencher um vazio interior.

Castro revelou que o material bruto das filmagens apresentava uma linguagem mais convencional do que a encontrada no corte final, que reflete uma decisão tomada em conjunto com Collier durante a pós-produção. A montadora detalhou o processo de transformação do filme, no qual foram descartados muitos contraplanos e tomadas masters para intensificar o foco narrativo quase que exclusivamente nas três mulheres. Dessa forma, apontou, todos os personagens masculinos são periféricos, e suas relações com as protagonistas insinuadas, em vez de expostas. A esse fato, a realizadora acrescentou que se interessa muito pela maneira como cada espectador pode projetar suas próprias percepções nessas lacunas deixadas propositalmente abertas na história.

Por fim, Figueiredo contou um pouco sobre a produção do filme, que necessitou de uma cuidadosa preparação devido ao aspecto road movie da obra, repleta de deslocamentos e paradas, e comentou que as filmagens empregaram muitos trabalhadores locais, principalmente no transporte dos equipamentos e da equipe. O produtor encerrou o debate expressando sua alegria de acompanhar a recepção do público e seu desejo de que o longa, apesar de sua linguagem não convencional, consiga se comunicar com o maior número de pessoas possível.

Texto: Vinícius Spanghero

Fotos: Pedro Ramalho




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