O diretor argentino Pablo Fendrik veio ao Festival do Rio para apresentar a sua mais nova produção, El Ardor, que se passa em uma selva misteriosa na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. No elenco, nomes de peso do cinema brasileiro e latino-americano como Alice Braga, Chico Diaz e o protagonista Gael García Bernal. Além disso, trata-se de uma coprodução com a brasileira Bananeira Filmes, da produtora Vania Catani.

O filme segue a linha dos filmes de ação anteriores de Fendrik, que tem em seu currículo O assaltante (2007) e O sangue brota (2008), mas com cenas que podem caracterizá-lo como uma espécie de western selvagem.

De passagem pelo Armazém da Utopia, Fendrik aproveitou para conversar com o site do Festival sobre El Ardor.

Como começou o projeto para realizar El Ardor?

O projeto começou em 2007, quando conversei com o Gael na Semana da Crítica do Festival de Cannes e combinamos de fazer um filme juntos. Quando comecei a imaginar essa história, meses mais tarde, nos encontramos novamente no Festival de Havana e voltamos a falar sobre isso. Em 2009 iniciamos os projetos para a produção e, em 2010, viajei a Missiones para pesquisar e escrever um pouco mais. Desde então o filme se transformou em algo totalmente localizado na selva.

Existe semelhança nos processos de produção de El Ardor, O assaltante e O sangue brota?

Os três filmes tiveram processos de produção muito diferentes. Acho que há pouca semelhança, porque em O assaltante foi tudo muito rápido. Um dia resolvi fazer o filme e em três semanas estávamos começando a filmar. As filmagens duraram nove dias e a edição duas semanas. Quando terminamos fomos à Cannes. Foi um delírio!

Em O sangue brota demoramos de dois a três anos só preparando a produção. E foi o meu primeiro filme oficial com patrocínio, incentivo do estado e coprodução com a França.

Já agora, em El Ardor, tivemos muito apoio para a pré-produção e um trabalho muito duro da produção executiva. Além de ter sido muito longo, pois envolvia Argentina, Brasil, França, Estados Unidos e México. Enquanto isso, eu me preparava para as filmagens. Esse é o meu filme com maior preparo e estrutura. E acho que isso conta muito no momento em que o assistimos. Tivemos muito cuidado com a produção e isso eleva a qualidade do trabalho. Não foi um filme tão corrido como os anteriores.

E como foi o processo de produção do filme?

A Argentina tem um sistema de incentivo através do estado. Nem sempre a maioria das produções é alcançada por esses subsídios. Mas esse sistema permite que tenhamos um sistema rico e diversificado. É bem diferente do que existe aqui no Brasil através dos patrocínios. Não temos patrocínios, de uma forma geral. Temos incentivo do estado, apoios privados e possibilidades de coproduções.

São combinações que requerem muita habilidade por parte dos produtores. Não é particularmente difícil. Comparando com o resto da América Latina, a Argentina é o país que mais produz filmes por ano. Mas temos problemas para distribuí-los.

Algo curioso, quando há uma comparação entre seus filmes e os demais produzidos na Argentina, é que as suas produções têm muita ação. Você se vê como um diretor de filmes de ação?

Essa é a vantagem de fazer cinema em um país no qual você tem a liberdade de fazer o que quer. Posso fazer um cinema muito autoral. No meu caso, faço filmes que me agradam. É o tipo de cinema que mais gosto de ver. Posso me aventurar em dizer isso, mas acho que nós diretores, geralmente, gostamos de assistir a filmes parecidos com o que gostamos de fazer. Pelo menos eu gostaria de assistir a mais filmes como os que eu faço (risos). Mas é claro que outras coisas também me interessam. Há filmes de outros cineastas que acho muito bons. Mas o que eu quero é que esse tipo de filme exista. Não apenas que tal filme especificamente exista, mas esse tipo de cinema.

No filme existe algo misterioso, principalmente ao redor dos personagens Kai e Vania. Mas também há essa atmosfera enigmática em torno da região onde o filme se passa. Todo esse mistério tem algum propósito especial?

Essa atmosfera existe para que não se saiba a princípio quem são os personagens, o que fazem ali. A ideia é intrigar o espectador mesmo. É preciso que este faça um esforço para compreender o que se passa. Aos poucos as coisas vão se organizando para que se arme na cabeça de cada um o universo a que o filme se propõe. Não há especificamente um conflito social. Existe uma universalidade na trama e no conflito que se desenrola. A temática do filme é regional, de alguma maneira. E a ideia de que fossem dois personagens misteriosos é para que se pudesse pensar que o conflito que há ali poderia se passar em qualquer lugar.

E por que um western tão particular?

A ideia de ser um western surgiu quando estive pesquisando a região, como as pessoas se vestiam, suas casas e seus trabalhos com a terra. A verdade é que existia todo esse conflito de apropriação ilegal de terras, no qual os grileiros matavam pessoas e tomavam suas terras. As pessoas tentavam se defender com um rifle que tinham atrás da porta de suas casas. Acontece que esse conflito existe há mais de 200 anos. E o western é um gênero que caracteriza bem esse tipo de conflito. É um estilo que marca a fronteira do confronto entre um suposto progresso e a natureza, e também caracteriza as gerações que lutaram por essas terras. Então, me pareceu que seria um detalhe artístico interessante fazer um western na selva. Seria uma forma de mostrar que esse conflito é muito antigo. Como ainda pode acontecer em 2014? Em pleno século XXI?

Foi a primeira que vez que você trabalhou com atores brasileiros. Como foi trabalhar com Alice Braga e Chico Diaz?

Nossa, foi incrível. São grandes atores. Cada um tem suas qualidades particulares. Trabalhar com eles foi um grande prazer. Tive a oportunidade de aprender muita coisa com cada um deles. A generosidade e a dedicação de Alice. A quantidade de recursos técnicos que ela tinha para cada cena. Eu pensava “Uau! Olha cada truque que ela conhece para fazer o que tem que ser feito!”. Foi fantástico.

Já o Chico é uma pessoa elevada. Ele tem equilíbrio. Tem muita experiência e boas decisões. Para mim ele é um exemplo a seguir. Quando eu for grande, quero ser como o Chico Diaz.

Por Fernando Flack



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