Um dos muitos prazeres que o Festival do Rio proporciona a seus espectadores é o da descoberta. Entre os lançamentos de diretores e atores conhecidos sempre presentes na programação, é grata surpresa esbarrar com produções de presença menos frequente em nossos cinemas, além de histórias e personagens únicos. Uma das pepitas de 2019 foi o documentário “O desaparecimento de minha mãe”, do italiano Beniamino Barrese. Com a câmera na mão o tempo todo e registros inevitavelmente intimistas, o diretor apresenta ao público sua mãe, Benedetta Barzini. Modelo de sucesso na Nova York dos anos 1960, militante feminista a partir da década seguinte, ela, aos 75 anos, ainda dá aulas para jovens estudantes de moda, mas anda farta dos papéis que a vida lhe impôs. Quando anuncia a disposição de “desaparecer”, sumir do mapa, esconder-se em uma ilha deserta, sem celular, sem nada, seu filho decide registrar cada passo da “mamma”.

Barrese revela uma personagem fascinante: brigona, de personalidade forte, como uma italiana de “almanaque”, cheia de manias curiosas, altiva e, acima de tudo, dona de opiniões personalíssimas sobre o mundo e as pessoas. A modelo que posou para as lentes do prestigiado fotógrafo Richard Avedon é avessa ao glamour. No começo do longa, é flagrada arrumando-se muito a contragosto para receber uma homenagem pública. Nas aulas de moda, alerta para as armadilhas do preconceito que se escondem atrás dos editoriais. Sobre o passado de glória nas passarelas, Benedetta Barzini conta que nunca se sentiu fotografada. “Aquela não era eu, com toda a maquiagem, os cílios postiços. A minha persona nunca foi fotografada”, diz. Beniamino Barrese já apresentou seu filme no Sundance Festival e veio ao Rio de Janeiro a convite do Festival do Rio. “É curioso, rodei praticamente tudo no quarto de minha mãe e, com esse filme, estou dando a volta ao mundo”, contou. Essa é parte da magia do cinema, a mesma que, através do Festival do Rio, nos apresenta personagens incríveis como Benedetta Barzini. 




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