Por Carlos Alberto Mattos

Lavoura Arcaica não é o que se costuma entender como simples adaptação literária, mas uma “leitura” do livro com a imagem, não por ela. Luiz Fernando não quis substituir o texto por equivalências visuais. Ele não admitiria que o fluxo verbal inebriante de Raduan Nassar desaparecesse em troca de belas e justas imagens. O texto segue junto por quase todo o filme, reproduzindo o torvelinho em que se mesclam pensamentos e visões objetivas. Vemos e ouvimos o livro simultaneamente. Mais que fidelidade, este é um caso de adesão apaixonada de uma obra à outra. O filme é capaz de reproduzir detalhes como a penugem de um rosto, um punhado de palha flutuando no ar ou as abundantes indicações de luz contidas na novela.

O universo panteísta de Raduan – onde gente, animais e matérias vegetais e minerais pertencem a uma só ordem – ganhou visualização à altura em cenas como a masturbação de André (a madeira do corpo, o vidro dos olhos) e a captura/atração da pomba/irmã. Assim também a natureza deixa de ser mera paisagem para se acomodar à vibração interior dos personagens: o “vôo” do menino para a igreja, a tranqülidade de uma pastoral familiar, o bosque transtornado em que André tenta sufocar sua consciência enferma. Cada tomada está imbuída de um sentido inequívoco, sem enfeites nem casualidades fora de controle.

Outra virtude desse amálgama entre duas grandes obras é a maneira como o espectador é levado a conhecer espaços, tempos e situações. A progressiva apreensão do quarto de pensão na cena inicial, só para citar um exemplo, corresponde exatamente à maneira como Raduan Nassar desfolha seus capítulos no livro. A descoberta não se dá a priori, mas “durante” a própria vivência da cena. Luiz Fernando não quis que a gramática antecedesse a emoção, conduta mais comum num cinema que busca a comunicação a qualquer custo.

O conhecimento é adquirido no tempo, como bem poderia dizer o pai de André num de seus sermões à mesa do jantar. Lavoura concede ao público o tempo necessário não para apenas entender rapidamente o que acontece na tela, mas para que tudo aquilo – seja uma dança, uma conversa ou a angústia de um onanista solitário – chegue a tocar a pele do coração. O tempo, esculpido com tanta sensibilidade nas dobras do filme, é parte da matéria dos muros, roupas, móveis e objetos que nele aparecem, nus e idosos como ossos.

As 2 horas e 47 minutos não fazem de Lavoura Arcaica um filme “longo”, como afirmam alguns. Ele tem a duração que haveria de ter, com sua circularidade, os câmbios bruscos de tempos internos, o andamento necessário à construção das “rimas” e do páthos, a imantação poderosa sobre o espectador que se dispuser a aceitar seu ritmo enredante. Da mesma forma, não é preciosista, como acusam outros, pois seu sentido se faz na calma sucessão de imagens-síntese (a mão estendida, os pés enterrados no chão, os olhos à espreita, a compenetração à mesa). Nenhuma imagem é puramente bonita sem que esteja significando uma fração importante do enredo visível ou subterrâneo. Se retirássemos o esplendor visual e sonoro do filme, seria o mesmo que subtrair o estilo de Raduan Nassar e, com isso, destruir a obra.

Este pode não ser o melhor filme brasileiro de todos os tempos, como já ouvi de outro crítico, mas é um candidato sério ao posto pela integridade de sua proposta e o brilho do resultado. A harmonia entre interpretações, fotografia e música – só quebrada, a meu ver, na cena hiperbólica da capela e, em menor grau, na parábola do faminto – confirma o lugar de Luiz Fernando Carvalho entre os maiores criadores do audiovisual contemporâneo. Sem meias-palavras, nunca é demais repetir que Lavoura Arcaica é uma obra-prima do cinema, a primeira do cinema brasileiro do século 21.




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