O mundo inteiro acompanhou em 2010 o drama dos 33 mineiros que ficaram por mais de dois meses presos na mina San José, em Copiapó, no Chile. A Fox Film do Brasil faz hoje o lançamento nacional de Os 33, dirigido por Patricia Riggen, no Festival do Rio. Além de Antonio Banderas e Juliette Binoche, outra estrela do elenco é o brasileiro Rodrigo Santoro, que interpreta o ministro de Minas do Chile, Laurence Golborne.

Santoro, como faz quase todo ano, veio prestigiar o Festival do Rio e contou sobre seu envolvimento com a história e o personagem, sobre a experiência de filmar em um deserto e contracenar com Juliette Binoche, grande estrela do cinema francês moderno.

O ator estará na sessão de gala desse sábado, dia 10, no Cine Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, às 21h30, para apresentar o filme. A sessão faz parte da celebração pelo aniversário de 20 anos da Fox Searchlight dentro do Festival do Rio.

Confira a entrevista abaixo.

Como se preparou para o personagem?

Acompanhei a história quando aconteceu, em 2010, e depois fiz muita pesquisa. Há muito material porque a cobertura da imprensa foi muito grande. Li e assisti muita coisa, e depois conhecemos todos os 33 mineiros e suas famílias em Santiago. Conheci também o Laurence Golborne [o ministro que interpreta] numa tarde. Fiz perguntas baseado no que iria vivenciar nas filmagens, e ele me mostrou como foi sentir aquilo internamente.

Meu interesse não era retratar exatamente a personalidade e os trejeitos dele, e sim o que ele viveu. Não quis imitar o ministro, e sim entender o envolvimento, a angústia, os conflitos.

Como foi sua relação com o papel?

Para transmitir essa emoção, tentei acreditar naquilo e expressar com a maior verdade possível. Trabalhei com símbolos, com coisas que emocionaram e com a história em si. O próprio fato de pensar que se está resgatando 33 vidas já é suficientemente forte pra te carregar de emoção. O deserto também é muito impactante, filmamos numa mina a alguns quilômetros da mina de verdade, onde houve o acidente. Tudo em volta ajudava a nos colocar nessa atmosfera.

Ele tinha que lidar com tanta pressão e não podia demonstrar, extravasar. Tinha que ser prático e racional, com tanta responsabilidade nas mãos. O resgate era praticamente impossível. Ele começa a ver o desespero das pessoas e é afetado por isso. Aí começa a se envolver num nível pessoal e emocional, e então começa a humanizar a jornada dele.  Inclusive com um tapa na cara de verdade da Juliette Binoche, do qual me orgulho muito! Quero mostrar pros meus netos! Eu achei muito bonito o personagem nunca desistir, o que os familiares confirmaram. Ele era novo no cargo, não sabia nada desse universo de mineração, e ele vai lá e tenta encontrar soluções.

Como foi filmar no Atacama?

Ficamos um mês e meio no deserto. É maravilhoso, traz um isolamento, muita força, é uma atmosfera, um silêncio muito inspirador. Isso ajudou a me colocar num lugar interessante pra fazer o trabalho. Tínhamos desafios diários, nenhuma cena era tranquila. Tudo era muito dramático, trabalhamos com a câmera na mão, algo quase documental. Não tinha muita marcação ou ensaio, eu tinha que estar atento e presente na hora. Todos os dias foram muito intensos e difíceis.

O que achou do filme pronto?

Vi três vezes, me emociono até hoje. Não sei de onde vem minha emoção, se é do meu envolvimento, se é com a história. O mérito do filme é contar uma história com surpresas, porque como já sabemos o final, já sai em desvantagem. Mas a grande sacada foi se aproximar dos mineiros. Eles foram entrevistados, o roteiro foi feito a partir deles, isso traz humanidade. O elo de comunicação com o espectador é a humanidade, a identificação, você pensa “podia ser meu pai, meu irmão”. Foram 17 dias dentro da mina, sem contato algum, uma situação muito cinematográfica. Se fosse um roteiro fictício, as pessoas diriam que “imagina, isso é coisa de Hollywood! Salvaram eles?”. Mas sim, salvaram!

Acredita que o filme vá ter impacto na vida dos mineiros?

Fiquei muito impressionado na première no Chile. Eles estavam lá, emocionados, gritando, revivendo a história. Nunca vou esquecer aquela noite.

Não acho que eles estejam felizes com a situação financeira, e acho que o filme vai ajudar, é um sucesso de bilheteria lá, acho que algo vai acontecer a partir disso. É algo que também fazemos com o cinema, sem levantar bandeiras ou tentar dar lições, mas fazer as pessoas refletirem sobre o que está acontecendo.

Como foi contracenar com Juliette Binoche?

Juliette é uma atriz absolutamente extraordinária, já vi quase todos os filmes dela. Tive a oportunidade de conhece-la no mês e meio que passamos no deserto. Ela é uma pessoa fora de série, de uma inteligência única, mulher generosa, bem humorada, grande artista. Ela está agora fazendo Antígona, viajando a Europa. Ela se coloca em todas as posições, cruza, cabeceia, é incrível.

Foi muito emocionante trabalhar com ela, não por ela ser um grande nome. Senti também quando trabalhei com Ed Harris. Tem muito isso do astro, claro, mas fora isso tem um grande ator, um talento. Não é só porque tem olho azul, fala inglês. Tem um porquê, e você sente isso quando trabalha com a pessoa. Com a Juliette foi a mesma coisa, ela tem um processo orgânico, sem esforço, algo nato mesmo. Ela tem um talento exuberante, é uma mulher muito muito interessante.

Por Gabriel Demasi

Foto: Stucky



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