O diretor italiano Sebastiano Riso passou a semana no Rio de Janeiro para apresentar a sua mais nova produção no Festival do Rio. “Uma Família” (2017) conta a história de Maria (Micaela Ramazzotti), que engravida várias vezes do amante Vincent (Patrick Bruel) para vender os bebês na indústria da adoção. 

Riso utiliza o seu cinema como um elemento de ação política e denúncia, e sempre traz ao espectador experiências contundentes. Recentemente o diretor foi espancado dentro de seu próprio apartamento em um ataque de características homofóbica. Mas o incômodo que os seus filmes causam no setor conservador da sociedade italiana também contribuíram para esta violência.


Como foi a recepção do seu filme na Itália, já que sabemos ser um país muito católico?

A reação foi muito forte e controversa. Alguns grandes críticos italianos até apoiaram, mas muitos outros não. Primeiramente disseram que a história não era verdade. Mas quando descobriram que eu tirei as informações de arquivos policiais eles disseram “Tudo bem. É real, mas a gente não gostou. Porque quando você denuncia o mercado de tráfico de bebês em um país que é considerado de primeiro mundo, algo pode acontecer”. Mas eu era o diretor mais jovem em competição no Festival de Veneza e a igreja apoiou o filme. O que é muito interessante. Não só apoiou como o defendeu dizendo que o filme era bom e honesto.

O problema hoje em dia são os “radicais chiques”. São pessoas que se consideram mente aberta, mas não são. Pessoas que se consideram tolerantes, mas que na realidade não são. São hipócritas e fakes. Seria melhor se todos soubessem quem são os inimigos reais como, por exemplo, durante o fascismo. Mas na Itália de hoje ninguém reconhece os seus reais inimigos. Porque em muitos momentos você é atacado por pessoas que acham que são mente aberta, tolerantes com os gays, mas, na vida real, eles não são. Se formos bem fundo a gente entende algo mais. Podemos descobrir que se você defende a diversidade entre pessoas ou nas famílias, você é um problema. Porque deixa as pessoas desconfortáveis com as suas próprias imagens, sexualidade a até com os seus corações.


Recentemente foi aprovada uma lei de união civil homoafetiva na Itália. Você poderia comentar?

Na Itália agora é possível o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, mas não é permitida a adoção.  Eles deram esse pequeno “presente” para a comunidade gay – porque é considerado um “presente” -, mas deveria ser um direito e não uma “doação”. Eles nos “doaram” esta oportunidade, mas a gente finge que tem o direito de ser casado, de ter uma família, de sermos pais e termos filhos, e que somos respeitados como pessoas, e não por sermos héteros.


O seu cinema tem o enfrentamento como uma forte característica. Podemos ver isso tanto em “Mais Sombrio que a Meia Noite” (2014), quanto agora em “Uma Família” (2017). Como você acha que o cinema e a arte podem interferir nesse mundo conservador que tem nos cercado hoje?

Quando você tenta abrir os olhos das pessoas, se cria um desconforto e se torna um problema. O meu primeiro filme “Mais Sombrio que a Meia Noite” é sobre um adolescente de 14 anos que é transexual. Agora falo sobre o mercado negro de bebês. Após anos de ditadura berlusconista as pessoas se recusam a assistir a filmes que não sejam comédias. Elas se tornaram estúpidas de alguma forma e apenas querem rir. O cinema italiano foi deixando de ser mais artístico e se tornando apenas entretenimento.


Como foi o processo de produção do filme?

Primeiro estudei como chegar nas pessoas que vendem ou compram bebês. Depois tentei colocar algo mais na história, porque os personagens reais pareciam tão tristes e obcecados por dinheiro. Então tentei colocar um ritmo político. Porque se você retirar um bebê de uma mãe não quer dizer que você vai tornar as suas vidas melhores. Não acho que seja possível vender qualquer ser humano. Acho que é o pior tipo de capitalismo. 


Texto: Fernando Flack



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