Texto: Dominique Valansi

Fotos: Patrick Szymshek/R2

Como parte da mostra Midnight Movies, o Festival do Rio apresentou o documentário “Serguei – o últimos psicodélico”, de Ching Lee e Zahy Tata Pur’gte, pseudônimos de André Lobato e Elida Braz, casal de cineastas que há 23 anos trabalha com teatro, música, dança e audiovisual a bordo de um motorhome. “Os pseudo nomes no cinema são uma brincadeira que nós adotamos isso porque cada um pode ser o que quiser”, contam.

Segundo os diretores, a ideia de um filme sobre o cantor Serguei nasceu há 14 anos atrás quando o artista fez 70 anos. “Nessa época nós estávamos em Fortaleza e fizemos um grande show para marcar essas sete décadas. A gente também pintou um grande quadro a óleo sobre tela e idealizou fazer um filme para contar essa trajetória. Assim, o show foi feito, o quadro foi pintado, mas o filme... Foi muito difícil fazer o filme. Um filme é pra poucos”.

A dupla contou que o primeiro grande embate que enfrentaram foi como ter recursos para fazer um filme sem patrocínio. “Esse documentário foi bancado do nosso bolso e custou 160 mil dólares. Arrumamos esse dinheiro e fomos para os Estados Unidos, no Texas. Colocamos uma unidade móvel que seria a nossa estação onde nós iríamos filmar e ter a ilha de edição, câmeras.

Chegamos lá na volta, ao entrar no México, quase pagamos com a nossa própria vida. Fomos sequestrados por 10 dias e perdemos todos os equipamentos”.

O incidente - que chegou a ser noticiado nos principais portais do país - e seus desdobramentos surpreendentes, dariam um segundo filme. “Seguimos direto para a América Latina até não dar mais para atravessar mais de ônibus. Em Cartagena, fomos nos divertir à noite em um Cassino. Nós bebemos e nos embriagamos com muito vinho e resolvi jogar na roleta. Nós ganhamos 60 mil dólares. Com esse dinheiro compramos quatro lentes, uma ilha de edição, uma grua, e remontamos a produtora, trouxemos para o Brasil e viemos para o Rio de Janeiro”.

Na Cidade Maravilhosa, eles recomeçaram a trabalhar e conseguiram um único apoio, que foi o Camping Club do Brasil que serviu de base para o estúdio móvel. “Ralamos muito e sem dinheiro para continuar o filme, tivemos que vender tudo. Começamos a trabalhar, fazer show, teatro, música, em qualquer lugar. Arrumamos o dinheiro e finalizamos o filme”, explicou Ching Lee.

Para Zahy Tata Pur’gte, “esse é um documentário muito importante em função da atual conjuntura política. Em que todos percebem um retrocesso nas liberdades individuais, onde existe hipocrisia e falso moralismo. Serguei é um personagem que resistiu à opressão de uma época dura, conservadora e careta. Ele inspirou gerações sendo propulsor na luta pelas liberdades e já sentiu na pele o poder da opressão há 60 anos atrás”.

A diretora reforça que Serguei sempre viveu da forma que quis, que lutou pelos seus ideais, vivendo as suas verdades e os seus sonhos. “E por trás dessa figura extravagante, exótica, e incompreendida para muitos existe um ser humano sensível e muito amoroso. Que depois daquela loucura dos seus shows, das suas performances, ele voltava pra casa pra cuidar dos pais idosos, até o fim da vida deles”.

O documentário mostra a trajetória e obra do ícone do rock e precursor da psicodelia no Brasil e ícone do rock. “É um filme colorido, muito quente. É um filme de amor que vai ajudar a quebrar muitos tabus. E nós esperamos que toda a jornada do Serguei seja um tapa na cara dos caretas”, finalizaram.



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