Por Sabrina D. Marques (Talent Press Rio)

O mais recente longa-metragem de Matías Piñeiro é um desses raros filmes novos que, de fato, sabem o que é o novo. Apesar de ser a sua quarta adaptação do mais adaptado dos clássicos – Shakespeare –, a inovação do hábil dispositivo que engendra para integrar o texto é de um experimentalismo entusiasmante, e um exponencial passo em frente face aos exercícios anteriores.

Entramos nas ruas de Novas York com a juventude do cinema dos irmãos Safdie: um ritmado piano aviva a câmara livre que acompanha uma mulher que apressadamente caminha. Esta jovem protagonista debate-se com uma tradução de um excerto de Sonho de uma noite de verão (A Midsummer Night’s Dream), e a qualidade fantasiosa do texto atravessa o filme, insufla com um tom épico os dramas do quotidiano. A sobreposição de narrativas simultâneas acontece de formas diversas – do texto sobreposto à imagem a ecrãs reflectidos sobre janelas – espessa a quantidade de informação a ver, assim produzindo uma realidade aumentada (a lembrar as SMS que recentemente vimos em As mil e uma noites, de Miguel Gomes, 2015).

Ao mesmo tempo que a narrativa fragmentada acontece entre os Estados Unidos e a Argentina, assistimos a outra sobreposição: o espanhol e o inglês lutam nas páginas desta tradutora de Shakespeare e, na pregnância de hipóteses para cada palavra submetida ao exercício da tradução-falsificação está inscrito o inesperado possível de cada instante. Mas estas cartas e páginas abertas geram uma espécie falsificada de proximidade: engenhosamente, dando a ver o que as personagens anotam, escrevem e trocam, são-nos ainda assim insondáveis as suas motivações.

Entre narrativas dentro de narrativas, estamos no interior da Rayuela,de Cortázar (O jogo da amarelinha)e, num jogo catalisado pelo acaso e pelo imprevisto, o rumo destas personagens perdidas constrói-se sem plano. Como uma página em branco, o seu futuro está aberto neste labirinto de possibilidades à entrada da vida adulta. Incorporando a crença rivettiana na dissolução dasfronteiras entre a vida e a ficção, as aventuras de Hermia & Helena rimam com as de Celine e Julie vão de barco (Celine et Julie vont en bateau, 1974) ou de Bulle e Pascale Ogier em Um passeio por Paris (Le pont du Nord, 1981) e Paris s’en va (1981). Alimentando a prática situacionista da deriva como processo de pesquisa, esta protagonista com contornos de Frances Ha efabula o seu presente entre as epopeias da vida e as da literatura, subitamente convidando o namorado cineasta a construir consigo uma narrativa amorosa - o amor não é afinal uma ficção construída a dois?

Matías Piñeiro não se abstem de materializar a sua reputada cinefilia e, permanentemente referenciando e prestando homenagem ao cinema, sobrepõe planos-sequência em longos dissolves, constrói cross-fades triplos, oscila entre o positivo e o negativo da imagem e insere integralmente uma curta (créditos incluídos) dentro do filme. Subvertendo o clássico, a genuína inventividade de Piñeiro dá um pontapé na boca de todos os pessimistas nostálgicos, calando quaisquer fatalismos que se possam atrever a vaticinar a morte do cinema.




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