Entrevista para Ana Pausa Sousa

O Berlilane Talents, programa-farol do Festival Internacional de Berlim, reúne, anualmente, cerca de 250 jovens profissionais de cinema na capital alemã. O projeto, criado há 15 anos, inclui uma enorme variedade de conversas, workshops, painéis de discussão e, é claro, exibição de filmes. O responsável por tudo o que acontece no Talents é Florian Weghorn, graduado em teatro, filme e televisão pela Universidade de Colônia e mestre em cinema. Antes cuidar do Talents, Weghorn era o responsável pela mostra Generation.

Weghorn, que nunca havia vindo ao Brasil, está passando a semana no Rio de Janeiro acompanhar a segunda edição do Talent Press Rio, um dos programas internacionais promovidos pela Berlinale Talents. Na conversa a seguir, ele explica o programa e as razões para a presença desse programa no Festival do Rio.

Qual era a ideia original do Berlinale Talents?

A história do Berlinale Talents se iniciou 15 anos atrás, em Berlim, e partiu de uma ideia bastante simples. Sempre que ocorre um festival, há muita gente interessante ao redor – seja levando seus filmes, seja participando do mercado. Então perguntou-se: por que não trazemos jovens para encontrar essas pessoas e começar a trocar experiências? Essa ideia é, hoje, algo comum, que vários festivais fazem. Mas, 15 anos atrás, era algo muito novo. Quando a ideia surgiu, em 2001, queríamos convidar mil pessoas. Em 2003, no primeiro Berlinale Talent Campus, reunimos 500 pessoas. Uma ideia importante, desde o início, é que esses encontros deveriam ser não apenas para diretores, mas para fotógrafos, montadores e, logo depois, também para críticos. Essa interdisciplinaridade é fundamental. Outra coisa é que, desde o começo, nós pagamos tudo – a passagem, a hospedagem, para que todos os selecionados tenham a possibilidade de participar. Atualmente, todos os anos 250 pessoas são convidadas para estar em Berlim durante o Festival. Elas são escolhidas entre mais de 5 mil candidatos. Nós não consideramos o programa um workshop de seis dias, mas sim o começo de uma relação que deve continuar. Isso tem a ver com o festival, de forma mais ampla. Um festival como Berlim é uma janela para o mundo, e o evento, desde o início, quer que o público desfrute dessa janela, participe do que temos a oferecer, aprenda alguma coisa, partilhe suas opiniões. O Berlinale Talents é um pouco de tudo isso. 

Como surgiu o Talent Press Rio?

Há dez anos, nós temos uma forte presença na América Latina – em Buenos Aires e em Guadalajara. Ambos os programas são em espanhol e o Talent Press de Buenos Aires é aberto para brasileiros. Mas nós percebíamos que os brasileiros acabavam não participando e nós também achávamos que faltava algo mais para este imenso país, que é tão importante para a América Latina. Levando em conta todas as questões relativas à língua, entendemos que deveríamos fazer alguma coisa no Brasil e que deveríamos fazer alguma coisa em português. Ao invés de criar um novo foco regional, embarcamos neste experimento de ter um programa que é, na verdade, moldado pela língua e não pela região, que é o que normalmente acontece. Nós procuramos o Festival do Rio, o Instituto Goethe e insistimos muito até conseguir fazer isso. Enfim o programa nasceu, cresceu, e nós estamos muito felizes com isso.

O fato de que o que os une aqui é a língua, e não a região, faz alguma diferença?

É interessante pensarmos sobre isso. Mas o que acontece aqui acontece em outras cidades, como Berlim, por exemplo. Nós, da Berlinale, partilhamos de uma certa visão a respeito do quanto a diversidade gera frutos. A diversidade pode contribuir para colocar as pessoas juntas – tanto pessoal quanto profissionalmente. É claro que o fato de os participantes virem de culturas tão diferentes torna tudo ainda mais instigante. Você pode conectar essas pessoas e, ao mesmo tempo, tem muito o que descobrir. Aqui, esta semana, você tem gente de três diferentes países. Em Berlim, a língua do Talents é o inglês, mas os participantes vêm de 70 países diferentes. 

Quando o Talent Press começou, havia uma imprensa escrita mais forte. Hoje, muitos dos participantes escrevem em blogs, por exemplo. A mudança na mídia refletiu-se em mudanças no programa?

A essência do programa ainda é a mesma. Acreditamos que é importante você aprender a escrever e a melhorar a forma pela qual você se comunica com as pessoas por meio da escrita – seja numa crítica, seja numa entrevista. Nós ainda temos mentores que trabalham em busca disso. Mas, de fato, a crítica de cinema perdeu uma de suas casas importantes, que eram os jornais, e está buscando o seu papel, está tentando se posicionar na indústria de cinema. Essa é, no entanto, uma questão complexa porque os participantes que nós tivemos em outra época também estavam buscando entender esse papel. O que talvez tenha mudado é que, antes, essa busca se dava apenas entre os jovens críticos; hoje, ela diz respeito aos críticos em geral. Mesmo que você tenha crescido nesse mundo e tenha se tornado um crítico estabelecido, a pergunta sobre qual o seu papel e a que lugar você pertence dentro de um festival te acompanhará por toda a sua carreira. Mas eu acho isso muito interessante e positivo. O Berlinale Talents procura colocar os participantes para questionar a si mesmos em relação a seu campo de trabalho de forma positiva e otimista.

O programa encoraja os jovens a se tornarem críticos profissionais?

Este é um lugar onde é possível você ser honesto não apenas em relação à sua profissão, mas em relação a você mesmo; e honesto com a possibilidade de que seu sonho e sua paixão por filmes possam se tornar um trabalho de verdade. Nós sempre colocamos isso: quando o seu sonho vira um trabalho e quando o seu trabalho vira um sonho? Neste momento da carreira, os talents têm de pensar: como eu transformo o que eu alcancei até aqui, o meu conhecimento sobre cinema e minha experiência de escrever, em algo que possa garantir meu sustento? Uma atmosfera aberta e honesta como esta nos ajuda a pensar sobre isso tudo a partir de diferentes perspectivas. Hoje, com as possibilidades da internet, todo mundo pode virar crítico de cinema. Mas, para mim, o jornalismo de cinema ainda é uma profissão que você tem de aprender e que pode te dar um emprego. Ou seja, este tipo de workshop serve também para assegurar a existência dessa coisa tão importante que é o jornalismo de cinema. 




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