Por Fernando Flack

A Cinemateca do MAM foi palco de um debate em torno do documentário Tio Bernard – Uma antilição de economia nesta quinta-feira (13) com as presenças do diretor do filme Richard Brouillette, da professora do Instituto de Matemática da UFRJ, Tatiana Roque, e do professor do Instituto de Economia da UFRJ, Carlos Frederico Rocha.

O filme faz parte da mostra Itinerários Únicos no Festival do Rio e traz ao espectador uma entrevista com o jornalista e economista francês Bernard Maris – mais conhecido como Tio Bernard - sobre o funcionamento da economia na virada do século XX para o XXI, com análises críticas sobre o contexto neoliberal e de todo o aspecto especulativo no qual se sustentam as políticas de mercado.

A entrevista com Bernard Maris foi realizada em 2000, mas acaba sendo vista nos dias de hoje como algo profético - mesmo não sendo essa a proposta do filme na época - por várias semelhanças sobre o que vem acontecendo no mundo desde a última década e por ter sido feita antes dos atentados de 11 de setembro de 2001 e da Crise de 2008.

Bernard Maris foi uma das vítimas do massacre no jornal francês Charlie Hebdo em 2015. Ele era uma dos sócios do jornal e participava de uma reunião editorial no momento em que terroristas invadiram o local atirando em todos os presentes.

Na abertura do debate, o diretor Richard Bouillette afirmou que o filme Tio Bernard ajuda na compreensão da economia no mundo, mesmo tendo sido filmado há 16 anos. E faz a sua homenagem ao jornalista francês dizendo que “as ideias de Bernard sobrevivem a ele”, e que “o filme é muito relevante, especialmente para lugares como o Brasil por tudo o que tem acontecido aqui neste ano”.

O professor Carlos Frederico Rocha disse estar de acordo com quase todas as análises feitas por Bernard durante a entrevista, sobretudo em como a ideologia neoliberal acaba entrando no cotidiano das pessoas. Fazendo um pequeno complemento sobre a teoria da “mão invisível do mercado”, que no filme é tratado por Maris como se os economistas não a pudessem comprovar, Carlos explica que dentro da matemática ela funciona. Mas que há elementos essenciais que precisam ser considerados. “A economia é sobre poder. E não existe economia formada apenas por bens de propriedade privada. Ela é cheia de externalidades, que são citadas por Bernard na entrevista, que podem ser “males”. Como por exemplo, a poluição. E há outras que eu posso chamar de “boas”, como o conhecimento. E este não é apropriável, o seja, não se pode transformá-lo em propriedade privada. E o que a economia faz? Ela transforma essas externalidades em “bens”. Como no caso da poluição, por exemplo, em que se criou o mercado de carbono. Quem polui paga mais para que o outro aceite a poluição. E geralmente são os países mais pobres onde as industrias poluentes estão situadas.”

Já a professora Tatiana Roque frisou as relações entre o neoliberalismo e a subjetividade, e disse que o filme causa espanto quando faz perceber a irracionalidade do sistema neoliberal. E que ao ser confrontado com essa realidade a pergunta que vem é “Quem é que deixou isso acontecer?”. Ainda analisando a complexidade da questão, Tatiana falou sobre a relação de todos com esse sistema. “É muito complexo porque justamente ninguém decidiu. E ao mesmo está todo mundo dentro. O neoliberalismo só sobrevive porque produz mecanismos de subjetividade que inscreve as pessoas dentro do seu funcionamento.”, complementa ela.

Richard Brouillette finalizou com uma análise sobre a raiz do sistema neoliberal, dialogando com o que foi dito por Bernard Maris no documentário. “É importante ver de onde vem o neoliberalismo ideologicamente. Alguns dizem que vem do funcionamento das leis da natureza, que seria o neoliberalismo clássico. Mas o fato é que tudo isso se baseia no contra individualismo. Como se não houvesse altruísmo ou sociedade. E tudo isso está no centro da ideologia e da economia neoliberal”, concluiu o diretor. 





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