O último debate da edição de 2015 do Cine Encontro, que ocorreu ontem (segunda, 12) no Odeon, foi marcado por muitos aplausos da plateia ao novo longa do diretor Sérgio Machado, Tudo que aprendemos juntos. Baseado na peça Acorda Brasil, de Antonio Ermírio de Moraes, e na história real da Orquestra Sinfônica Heliópolis, o filme fala do potencial transformador da arte. A trama traz Lázaro Ramos como um violinista que relutantemente aceita lecionar música para jovens de uma comunidade carente e vai aos poucos se transformando, à medida que se envolve com os alunos e causa um impacto real em suas vidas.

Questionado pelo mediador, o jornalista e roteirista Marcelo Starobinas, com relação à gênese do projeto, Machado revelou ser filho de músicos, tendo crescido “entre violinos e violoncelos”, ouvindo música clássica o tempo todo. “Este filme é um retorno à minha infância e uma espécie de tributo aos meus pais”, declarou. Além disso, o realizador expressou o desejo de lançar um olhar afetivo sobre o Brasil, falando dos problemas, mas tendo por foco o trabalho incansável daqueles que lutam para melhorar o país. “Eu não pretendo morar em Miami”, disparou.

Os membros presentes do elenco sublinharam a importância do trabalho da preparadora de elenco Fátima Toledo, assim como dos intensos ensaios com os instrumentos musicais, que se estenderam por quase um ano. O dançarino Elzio Vieira contou que essa primeira experiência como ator impulsionou sua paixão pelo cinema. Também debutando nas telas grandes, a musicista Caiti Hauck concordou: “É um assunto relevante e atual”.

Kaique Jesus, que havia atuado anteriormente em Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, também falou do valor  do tema abordado em Tudo que aprendemos juntos. O jovem ator recordou ainda sua relação com o violino, dizendo: “Eu tinha certo preconceito, mas é um instrumento mágico”.

As atrizes Gih Vitorino e Bruna Oliveira comentaram sobre a preparação musical e a união da equipe. “O mais difícil foi desaprender a tocar para fazer as cenas iniciais. Eu tinha que errar as notas, mas já não conseguia errar”, revelou Vitorino, falando sobre os ensaios constantes. “Foi um convívio de quatro anos, nos tornamos uma família”, completou Oliveira, destacando os laços entre aqueles que interpretam os componentes da orquestra. O diretor então lembrou que a orquestra retratada no filme é inteiramente composta por jovens que residem em comunidades carentes, e portanto conhecem bem a realidade representada na narrativa. “Eu sou figurante dessas cenas na vida real”, acrescentou Kaique de Jesus.

Machado enalteceu o talento desses “vinte e tantos meninos excepcionais”, e definiu sua motivação principal para se dedicar ao projeto: “Eu queria fazer um filme pros meninos verem e se orgulharem muito, queria retratá-los de forma digna. O filme é deles e pra eles”.

Sobre a escalação de Lázaro Ramos para viver o protagonista, o cineasta confessou que o ator não foi sua primeira opção para o papel, que inicialmente seria desempenhado por um ator branco. “O Lázaro me disse: ‘Não é que eu queira fazer esse filme, eu preciso fazer esse filme, é a minha história’. Felizmente eu escutei!”. Machado recordou ainda a exitosa parceria com Ramos, ao lado de quem filmou Cidade baixa, e expressou sua admiração pelo trabalho do amigo.

O público, muito receptivo e repleto de músicos e jovens que se identificaram com os personagens por conta de suas vivências pessoais com projetos comunitários, não hesitou em dar voz a muitas perguntas e destacar a verossimilhança da obra. Nesse contexto, Machado disse acreditar que o sucesso do longa, que foi exibido na sessão de encerramento do Festival de Locarno deste ano e já foi vendido para um grande números de países, é a sua perspectiva esperançosa e não fatalista. 

Encerrando o último Cine Encontro do ano, Sérgio Marchado afirmou que o longa-metragem estreia em circuito comercial no dia 3 de dezembro, e  evidenciou a estreiteza de sua afinidade com o personagem central e a história: “O Lázaro disse que o protagonista era ele, mas eu acho que sou eu. O filme tem muito da minha vida, mas, em vez de música, é cinema”, concluiu.

Texto: Maria Caú

Fotos: Lariza Lima





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