Por Alex França (Talent Press Rio)

A história da humanidade é marcada pelos deslocamentos humanos, que podem ocorrer por diferentes razões. Perseguições políticas, busca por melhores condições de vida, de estudo e de trabalho têm levado milhares de pessoas a viver a experiência da diáspora. Em Comboio de sal e açúcar (2016), de Licínio Azevedo, cuja história se passa em 1988, durante a guerra civil em Moçambique, o principal motivo para a maioria das personagens embarcar em uma viagem arriscada é o reencontro com a paz. O filme é uma adaptação do romance homônimo escrito pelo próprio diretor, nascido no Brasil e radicado em Moçambique. Jornalista de formação, ele escreveu o livro a partir de suas pesquisas sobre a história do país, de sua vivência como moçambicano naturalizado e da recolha de relatos da população.

A guerra civil, que começou dois anos depois da conquista da independência (1975), seguiu até o ano de 1992, quando foi assinado o Acordo de Paz. Vale lembrar que, antes dela, Moçambique já havia vivido outro longo conflito, dessa vez contra Portugal, entre 1964 e 1974, na luta pela retomada de sua autonomia (durante mais de quatro séculos, Moçambique foi uma colônia portuguesa). As guerras trouxeram entre suas consequências uma constante instabilidade política para o país.

A principal justificativa para a guerra civil moçambicana foi a disputa pelo controle político do país entre os integrantes da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) – que se tornou partido político depois da independência e assumiu o governo, sob o comando de Samora Machel –, e a Renamo (Resistência Nacional de Moçambique), grupo dissidente formado principalmente por ex-integrantes da Frelimo. Os dois lados do conflito receberam financiamento externo e estavam alicerçados por motivações ideológicas e econômicas distintas: enquanto a Frelimo defendia o socialismo e tinha apoio dos países de mesmo bloco, como a antiga União Soviética, a Renamo defendia o capitalismo e teve apoio de países como África do Sul, Rodésia (atual Zimbábue) e Estados Unidos (o que vincula a guerra civil moçambicana ao contexto mais amplo da Guerra Fria).

No filme, o trem, que parte de Nampula carregando toneladas de sal, leva também um grupo de pessoas em busca de um destino menos violento e mais próspero. Durante a guerra, na região norte do país, as plantações de açúcar foram destruídas, o que gerou a escassez do produto, tornando-o muito caro. A estratégia adotada pela população para reverter tal problema é viajar para Malauí, país fronteiriço, e lá trocar sal pelo açúcar. O grande desafio dessa viagem é conseguir chegar ao destino com segurança e escapar dos possíveis ataques dos “bandidos armados”, expressão que faz referência aos integrantes da Renamo. Por isso, o comboio é escoltado por um grupo de soldados do Exército, sob o comando do enigmático capitão Sete Maneiras.

Pela primeira vez, Licínio Azevedo investe em um filme de guerra, inspirado nos clássicos westerns norte-americanos. A presença do trem, que assume uma função importante na narrativa, é uma das características do gênero, assim como a viagem em si, e o duelo entre dois homens pela conquista de uma mulher, no clássico confronto entre o bem e o mal (com a vitória do herói no fim). O filme também traz uma dose de romance ao retratar o amor entre Taiar (Matamba Joaquim), um dos militares responsáveis pela escolta do comboio, e Rosa (Melanie de Vales Rafael), enfermeira encarregada de trabalhar em Cuamba.

A narrativa também apresenta tensão, conflitos e ataques armados, com feridos e mortos, típicos dos filmes de guerra, mas não carrega nos recorrentes estereótipos identificados em outros filmes, principalmente em produções hollywoodianas cuja temática envolva guerra na África, como Diamante de Sangue, O último rei da Escócia, Tiros em Ruanda, e O senhor das armas, entre outros. Segundo o escritor e cineasta nigeriano Ngugi Wa Thiong'o, essas narrativas representam um discurso “afropessimista”, isto é, enfatizam apenas características negativas da África e dos africanos, e costumam ir ao encontro da expectativa de boa parte do público e da crítica ocidental por narrativas que vinculem o continente africano apenas à pobreza, fome, miséria, guerras e doenças.

Não há em Comboio de sal e açúcar apelo ao excesso de sangue e mortes. Tudo é apresentado de forma sutil. Um dos momentos mais comoventes mostra o nascimento de uma criança. A mãe, Amélia, é cercada por um grupo de mulheres, criando um círculo de proteção. O bebê nasce enquanto o trem é alvejado por tiros, um dos muitos ataques que sofre ao longo da história.

O respeito à terra em que os antepassados são sepultados também é uma característica recorrente da sociedade moçambicana presente no filme. Os parentes mortos costumam ser enterrados nas terras das próprias famílias – de preferência, próximas às árvores. Por isso esse apego à terra e o medo de abandoná-la. Muitos acreditam que, quando se afastam, ficam propícios a acontecimentos ruins. Em uma das cenas, por exemplo, uma criança chora, e os pais justificam a provável “doença” do filho pelo fato de ele ter nascido longe das terras dos familiares. Eles acreditam que a criança só poderia ser curada com a ajuda de um curandeiro. Rosa, por outro lado, defende a importância e eficiência da medicina “moderna”. Esse episódio enriquece a perspectiva do filme, apresentando diferentes posicionamentos dos moçambicanos em relação à tradição e à modernidade. 

Fazer um filme africano de guerra não deixa de ser algo ousado e desafiador. Países africanos como Moçambique não costumam receber apoio dos governos locais para suas produções. E, se fazer um longa-metragem já costuma ser caro, filmes de guerra são ainda mais, pela necessidade de efeitos especiais, maior tempo de ensaio e filmagem, maior contingente de atores e figurantes etc. O filme é resultado de uma coprodução entre Moçambique, França, Brasil, África do Sul e Angola, parcerias fundamentais para a viabilização do projeto.

Comboio de sal e açúcar explora o conflito entre o bem e o mal com algumas nuances. Se, por um lado, Taiar e Salomão são aliados contra os chamados “bandidos armados”, por outro, são rivais tanto pelos posicionamentos morais quanto pela disputa por Rosa. Salomão tem uma visão machista e agressiva em relação às mulheres. Acredita que, por ser homem e tenente do Exército, pode possuir qualquer menina ou mulher. Inicialmente, persegue e tenta violentar Rosa, protegida por Taiar, mas a esposa de um dos passageiros não tem a mesma sorte. Ela é forçada a abandonar o marido e o filho para atender aos desejos do tenente.

A narrativa segue uma estrutura linear que articula diferentes situações, temas e conflitos: a guerra, o trajeto do trem, o cenário de destruição pelas balas, bombas e minas terrestres (em contraposição à beleza das montanhas da região norte de Moçambique), os relatos e experiências das personagens em trânsito, o romance entre Rosa e Taiar.  O espectador acompanha a viagem como se fosse um dos passageiros, na expectativa de chegar ao destino com segurança. A constante ameaça dos possíveis ataques armados cria diversos momentos de tensão, auxiliados pela sucinta e eficiente trilha sonora.

As escolhas cromáticas dos planos, sob a direção de fotografia de Frédéric Serve, dão ao filme um tom terroso, pela predominância do marrom, no solo, e do bege, nos galhos. O verde dos uniformes militares e das árvores da região ajuda a inserir o filme em um ambiente campestre. As imagens também investem em escalas de cores mais frias, com o uso de tons azulados nas cenas iniciais, em que os passageiros aguardam a partida do trem sentados no chão da estação, com expressões de cansaço e preocupação, assim como nos uniformes dos funcionários da empresa ferroviária e nas cenas noturnas, quando o trem está parado e a ameaça de um ataque parece maior.

Assistir a Comboio de sal e açúcar é embarcar em uma viagempara um país tão próximo aos brasileiros, mas ainda desconhecido por muitos. É adentrar de forma cuidadosa em um universo sociocultural diverso e rico. É sentir um pouco na pele o que significa se deslocar, forçosamente, para sobreviver.




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