André Finotti, o montador de três filmes brasileiros da seleção 2009
No ano de criação do Troféu Redentor para a categoria Montagem, se destaca nas fichas técnicas dos filmes brasileiros da seleção o montador André Finotti, responsável pela edição e montagem de dois (dos onze) longas de ficção que concorrem ao Troféu Redentor, e ainda de um documentário da mostra Expectativas. O montador esteve no Pavilhão do Festival e conversou com o Site.
Site: Você está no Festival com três filmes que você montou: Os Inquilinos (Os incomodados que se mudem), de Sergio Bianchi, O Sol do Meio Dia, de Eliane Caffé, e o documentário 27 Cenas sobre Jorgen Leth, de Amir Labaki. Pode contar um pouco de seu percurso e formação?
André Finotti (AF): A minha formação não é em Cinema, sou formado em Publicidade porque quando prestei vestibular, o Collor tinha acabado de extinguir a Embrafilme e havia sido produzido apenas um filme no ano anterior ao meu vestibular... Então eu tava desesperado e achei que na Publicidade eu pudesse exercitar o cinema também. Fiz um workshop na NYU (Universidade de Nova York) de seis meses e voltei ao Brasil para começar do zero. Por sorte o meu irmão estava começando a filmar um documentário sobre o José Mojica Martins, e aí foi o meu primeiro trabalho para cinema. Foi uma produção totalmente independente, eu comecei fazendo câmera, eles compraram a primeira mini-dv que saiu no mercado. Aí a gente alugava a câmera para conseguir um dinheiro para alugar uma ilha de edição. (...) Isso foi em 2000. O filme foi super bem, recebeu o prêmio do público no É Tudo Verdade, foi selecionado no Festival de Sundance e recebeu uma menção honrosa do júri latino-americano. Foi um começo meteórico na montagem, porque era meu primeiro trabalho, aí eu achei que meus problemas estavam resolvidos, que meu telefone ia começar a tocar, mas não foi isso que aconteceu claro (risos). Depois disso fiz muito vídeo de casamento, making ofs... E somente 5 anos depois montei meu primeiro longa, A Via Láctea (2006).
Site: Mas nesse meio tempo você foi premiado pela montagem do curta-metragem Infinitamente Maio.
AF: Exatamente. Eu fiz poucos curtas e esse é um que eu adoro, a montagem é importante para o filme.
Site: E os filmes que estão no Festival, como foi trabalhar com esses três diretores diferentes?
AF: Os três filmes eu considero bastante autorais, nenhum deles é feito com a intenção de atingir um grande público. A liberdade na montagem varia muito a cada filme, a cada diretor. Por serem filmes autorais, isso se estende também a toda a equipe, abre mais possibilidade de experimentar. O filme da Lili Caffé, por exemplo, tem um roteiro lindo, com personagens únicos, maravilhosos, e havia uma experimentação com a polifonia: vários personagens e várias histórias acontecendo ao mesmo tempo, muitos personagens com importância grande, mesmo não sendo essenciais para a história. Na montagem percebemos que isso não funcionava, então muitas cenas caíram, atores tiveram todo o seu trabalho descartado, personagens desapareceram. Surgiu uma história que não era completamente diferente do que estava no roteiro, mas tinha outras qualidades. É interessante montar um filme assim, com muitas possibilidades.
Os outros dois tinham um roteiro com estrutura muito rígida. O 27 Cenas sobre Jorgen Leth já foi concebido desde o início como um filme de cenas. O Amir Labaki queria fazer em princípio 66 cenas, porque o Jorgen Leth tem um filme chamado 66 Cenas sobre a América, e ele começou a trabalhar esse material, foi muito generoso comigo e dividiu todo o material desde o início, filmes, transcrição das entrevistas. No final ele escreveu um roteiro que era muito próximo do que foi rodado e já havia a estrutura do filme. O desafio foi organizar a ordem das cenas, criar uma curva de emoção para que o filme funcionasse como um todo, e não cada cena isoladamente. O trabalho de montagem foi mais necessário nessa questão da fluidez, para não ser tão fragmentado.
O filme do Sergio Bianchi tem um roteiro da Bia Bracher, seu primeiro para o cinema, se não me engano. Ele é construído em cima da rotina do personagem, que vai para o trabalho, vai para a escola à noite e volta pra casa no final do dia, encontra a mulher, os vizinhos... Então essa estrutura já foi pensada desde o início. Na montagem a gente teve que fazer algumas adaptações de ritmo, poucas cenas caíram. Acho que o grande desafio da montagem, pode ser lugar comum dizer isso, mas é fazer com que o filme fique interessante o tempo todo.
Os três filmes têm momentos em que são lentos, com planos lentos, mas não pode cair o interesse do espectador. É um desafio comum que surgiu nos três filmes, todos tinham essa necessidade de planos e sequências longos.
Site: Como funciona o seu processo de montagem?
AF: A gente assiste muito o material, faz pausas depois de trabalhar um tempo para assistir os cortes e ir encontrando o ritmo que é próprio de cada filme, que o material pede. Não é muito pensado, muito calculo, é mais intuitivo. (...) A Lina Chamie, diretora de A Via Láctea, uma vez comentou isso, que eu tenho essa propriedade de "sentir as imagens", foi a frase que ela usou. E acho que isso se deve ao fato de eu ter trabalhado durante 3 anos como VJ (video jockey) em grandes festas de música eletrônica, fazendo edição ao vivo. Muitas vezes eram 12 horas de festas e eu produzia 36 horas de material, porque havia três telões com imagens diferentes. Então era uma coisa muito intuitiva, muito rápida. Onde colocar o corte, quais imagens colocar... Se você cronometrar os filmes do Kubrick, você vai ver que as sequências todas têm 2 minutos, um pouco pra mais, um pouco pra menos. Existe uma cadência, a montagem tem muito da música.
Site: Você sempre lê o roteiro previamente?
AF: Sempre começo com o "juntão" ou "coladão", que é o roteiro filmado. Eu gosto de fazer isso, montar cada sequência filmada, de uma forma até que caprichada, depois assisto esse material e vários problemas aparecem. Aí que começam efetivamente os problemas: mudar sequências de ordem, reduzir drasticamente algumas, excluir outras, fazer associações não pensadas antes. Eu começo com o roteiro, mas depois desse coladão eu abandono completamente. Acho que a gente tem que se liberar, fazer as mudanças necessárias, tanto em relação às sequências quanto os próprios diálogos. Às vezes você tira pedaços de falas, pede para o ator fazer diálogos para colocar em cenas que ele está de costas, coloca uma respirada que dá outro sentido para a cena.
Site: Isso é sempre bem recebido pelos diretores? Essa intervenção?
AF: Nem sempre as relações são amistosas. Tem um montador que costuma dizer que o esporte preferido dele é bater em diretor... Não é muito filosofia, eu adoro os diretores, são pessoas que me fascinam muito, eles têm um necessidade de se expressar, de contar uma história. Há brigas, discordâncias, mas 95% das vezes elas são definidas com acordo. Mas o que não pode ser nunca esquecido é a história que o diretor quer contar. É adaptar o que foi feito na filmagem àquilo que o diretor quer dizer com a história. No caso de Os Inquilinos, havia uma divergência entre mim e a roteirista, e o diretor acabou rodando dois finais, para decidir pelo final de minha preferência. No filme da Eliane Caffé, tínhamos também uma divergência grande e o corte final foi feito por palavra final dela, a gente não chegou em acordo. Mas ainda assim amo o filme, é a história que a Lili queria contar.
Site: Esse é o primeiro ano de Troféu Redentor para montagem, roteiro e fotografia. Qual a importância da premiação para essas funções?
AF: É maravilhoso que esses prêmios tenham sido criados, espero que nos próximos anos novas categorias técnicas sejam incluídas, como edição de som, mixagem. São trabalhos muito importantes na feição de um filme e um festival, para ser considerado completo, deve ter essas premiações, para não ficar limitado ao tapete vermelho, só as estrelas e o diretor. São essas pessoas que estão por trás desse trabalho que chega às telas e acho que o festival é o momento para isso, é uma oportunidade de ter acesso, encontrar essas pessoas que explicam o que fizeram e por que fizeram aquilo. (Helen Beltrame)






