Foto e texto: Dominique Valansi

Conhecida por ser muito privada, um dos maiores nomes da arte portuguesa revela-se pela primeira vez no documentário “Paula Rego, histórias e segredos”, parte da mostra Itinerários Únicos, do Festival do Rio 2017. Dirigido por seu filho, o cineasta inglês Nick Willing, o filme conta detalhes de sua jornada, uma vida de luta contra o fascismo, o misógino mundo da arte e a depressão.

A artista nasceu em 1935, em Lisboa, em uma família republicana e liberal, com ligações às culturas inglesa e francesa. Residindo durante a infância e adolescência no Estoril, é incentivada pelo pai a prosseguir seusestudos artísticos fora de Portugal salazarista dos anos 50. Ela ingressa na prestigiada Slade School of Fine Art, em Londres. E lá conhece vários artistas, entre os quais o seu futuro marido, Victor Willing, com quem passa a viver entre os dois países.

Nos seus trabalhos, Rego usou suas imagens poderosas como uma arma contra a ditadura antes de se estabelecer definitivamente no Reino Unido em 1976, onde continuou a abordar questões sobre a situação da mulher. Acima de tudo, as suas pinturas são um vislumbre de um mundo íntimo de tragédia pessoal, fantasias perversas e verdades constrangedoras.

O diretor Nick Willing veio ao Festival do Rio especialmente para o lançamento deste que é seu primeiro documentário, na noite de 7 de outubro, no Estação Net Rio. Leia a entrevista com o realizador.

Como surgiu a ideia de fazer esse documentário?

Quando a minha mãe fez 80 anos, Paula começou a contar histórias que eu nunca ouvi sobre a vida dela, que também é a minha vida. Segredos que explicavam coisas muito importantes sobre ela, mas também das obras que tem feito. Então eu quis fazer um documentário.

O que sua mãe achou dessa iniciativa?

Quando disse que faria um filme, ela respondeu que era uma ideia muito estúpida e que ninguém se interessaria em suas histórias. O que não foi verdade. Mas eu comecei a filmar aos poucos, falando que eram registros só para a família.

Como foi a pesquisa para a realização do filme?

Nesse processo, um fato importante que descobri é que meu avô materno tinha uma coleção de filmes que tinha feito, como cinegrafista amador. Ele começou a filmar em 1929, com as primeiras câmeras e continuou por décadas. Os filmes são mágicos: imagens de minha mãe, meu pai, os anos 1950 e 1960. O documentário então é uma coisa muito rica, por que não só fala da minha mãe, mas conta também a história de Portugal numa época muito difícil, na ditadura de Salazar.

Como está sendo a repercussão do filme?

Esse é meu primeiro documentário, e ele foi feito pra BBC. Além de passar em museus e instituições culturais, ele ficou nove semanas em cartaz nos cinemas em Portugal. O que é muito raro.

Esta é a sua primeira vez no Festival do Rio. O que está achando da cidade?

Eu gosto do Rio. Eu estava aqui há pouco tempo, há uns dois anos para fazer um filme para os Estados Unidos. Fiquei aqui por três semanas e usei uma equipe brasileira. Eu adoro os brasileiros, adoro. O Rio é uma das minhas cidades favoritas. Eu não tinha vindo ainda ao Festival do Rio, mas logo que fui convidado eu disse “pronto, temos que ir.” Minha mulher e eu viemos logo.




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