Texto: Maria Cabeços

Fotos: Brenda Vianna

Nesta quarta-feira (11/10), o Cine Encontro abordou o documentário Pastor Cláudio. O debate foi mediado por Carlos Alberto de Mattos com a presença de Beth Formaggini, Marcia Medeiros, Julia Bernstein, Adenilson Muri e Bárbara Morais. A história trata de uma entrevista entre o psicólogo Eduardo Passos e Cláudio Guerra, assassino militar durante a Ditadura. A diretora Formaggini contou que a ideia sobre o filme ocorreu após a produção do curta Memórias para uso diário, onde conheceu a Dona Evanilda Veloso, cujo marido havia desaparecido mas nunca desistiu de buscar informações sobre seu paradeiro. Formaggini,

então, em uma de suas pesquisas, descobriu um pequeno documento que provava ele ter sido preso. “Bom, isso ficou no meu travesseiro desde 2007 até 2015, me sentia mal por isso e quando surgiu o livro do Claudio Guerra, imediatamente comprei e vi que ele tinha participado de quatro eventos e que o Itair [Marido de Evanilda] tinha morrido na Operação Radar. Então, pensei que esse homem poderia saber de alguma coisa sobre ele”. 

Além disso, explica a importância desse filme atualmente, “O que é mais importante nesse filme é entender o hoje. Esse momento difícil que a gente está vivendo, que a gente tá perdendo todos os direitos. Voltamos a legislação trabalhista de 100 anos atrás. Acho que é um momento que a gente tem que perceber o passado para a gente entender o presente". 

Expõe, também, a dificuldade no processo de preparação para lidar com o entrevistado e a criação do projeto. “Passei muito tempo me preparando e preparando o Eduardo para o encontro com o inimigo. Como funcionava para conseguir extrair dele essas histórias, você sente que ele se sente bem. Ele gosta de falar”. “A transformação de alguém num monstro capaz de matar é mais próxima da nossa realidade do que a gente pode imaginar. Eles não vêm vestidos de monstros, são homens que acreditam que deram o último tiro de misericórdia para amenizar o sofrimento de alguém”, conta Medeiros.

Em relação à montagem, Medeiros explica que, por conta da tensão instalada no local de gravação, a entrevista foi feita sem espaçamento de tempo, que teve que ser inserido com o silêncio. “A montagem desse filme é cirúrgica. Não tem um frame que não foi pensado. O tempo de escuta, o silêncio, precisava ser construído para a gente, inclusive ‘digerir’ aquilo. Tem uma produção do silêncio que é um gesto até respeitoso com quem vai assistir ao filme”.

“Esse filme foi feito em um ambiente tão tenso que só quando a gente chegou na pós-produção que descobrimos algumas coisas que não observamos, por exemplo, o som do projetor”. Ao fim do debate, Hernesto, da plateia, comentou que, através do documentário, pode compreender que um amigo militante desaparecido, na verdade, havia morrido na mesma operação. “Eu tinha um amigo que sumiu e agora eu tirei minha dúvida”, disse emocionado.




Voltar