Foi um longo tempo de gestação, mas o resultado valeu a pena: o documentário Tudo é projeto, que estreou no Cinépolis Lagoon, traz para a tela do cinema, pela primeira vez, as histórias e a obra de um dos maiores arquitetos brasileiros, Paulo Mendes da Rocha. O filme começou a ser pensado quando o arquiteto ganhou o Prêmio Pritzker, considerado internacionalmente o Nobel da Arquitetura, em 2006. 

De lá para cá, foram muitas filmagens, muitas viagens, uma batalha para levantar a produção, até chegar ao filme de cerca de 90 minutos em que Paulo Mendes da Rocha encanta a plateia com seu humor certeiro, enquanto passeia pelas muitas construções que desenhou por diversas cidades, em circunstâncias bem diferentes. 

O traço do arquiteto está nos desenhos espalhados pelas gavetas de seu escritório, nas linhas das construções, e também no seu trabalho com mobiliário, de que é exemplo a famosa cadeira paulistana, de 1957. E assim se contam 60 anos de trabalho e andanças pelo mundo, entre viagens, períodos de moradia noutros países, prêmios.

Tudo é projeto foi feito pela filha do arquiteto, Joana Mendes da Rocha, em parceria com Patrícia Rubano. E passeia pelas obras mais importantes do arquiteto. Lá estão a Praça do Patriarca, o Museu Brasileiro de Escultura, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, a Casa Butantã em São Paulo, o Museu Nacional dos Coches de Lisboa. E a câmera passeia pelos traços da arquitetura enquanto Paulo vai contando seu método de trabalho, sempre entremeado com a sua filosofia de vida. Há também memórias de família no filme e depoimentos de parceiros em trabalhos arquitetônicos, como foi o caso da recente reforma do Sesc 24 de maio, no centro da capital paulista.

_ O filme demorou muito tempo para ser feito porque tivemos uma batalha muito grande para levantar a produção _ diz Patrícia Rubano _ Mas o resultado foi um filme feito no ritmo de um passeio, acompanhando as muitas histórias do Paulo, mostrando seus ambientes, sua criatividade, e seu humor no modo de encarar a vida.

Joana, filha de Paulo Mendes da Rocha, abre uma parte do baú de lembranças da família, quando fala da Casa Butantã, onde o arquiteto morou com os filhos e onde hoje mora um deles, o fotógrafo Lito Mendes da Rocha, que participou de um livro sobre as muitas inovações da casa. O projeto de Paulo Mendes promoveu uma completa reestruturação dos espaços interiores, apresentando um novo jeito de dividir o lar com os familiares (ou amigos), e compartilhando o espaço de maneira única e transgressora para os padrões habituais de mercado. Concreto aparente e muito vidro fazem parte da estrutura, e promovem uma conversa íntima entre espaços públicos e privados da casa como principal inspiração para o modo de vida comunitário que a construção convida a ter. Assim, passeando pelos inteiros, a câmera vai contando histórias num ritmo de contemplação, como quem navega devagar pelos mares e navios que tanto fazem parte do imaginário do arquiteto.

_ Nós quisemos imprimir ao filme um ritmo contemplativo, com uma câmera parada, contemplativa, que deixasse o olhar dos espectadores perambular pelo desenho da arquitetura. E temos muitas cenas de mar e de navios, porque este é o imaginário que faz parte da arquitetura do meu pai. Fizemos um filme para contar histórias no ritmo da memória e da imaginação, como faz o próprio arquiteto ao contar o que o inspirou em cada projeto _ comenta Joana.




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