Uma boa conversa reuniu o diretor e o produtor do filme A Ciambra, candidato da Italia na corrida pelo Oscar 2018, e a plateia da estreia do filme no Festival do Rio 2017. A sala 1 do Estação Net Botafogo estava totalmente lotada para acompanhar a história de um menino numa comunidade pobre da Itália, entre ciganos e africanos. O diretor Jonas Carpegnino e o produtor Ricardo Teixeira responderam perguntas do público depois da sessão. A conversa foi aberta pelos comentários de Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio.

_ Todo ano o Festival do Rio tem muitos filmes italianos. O cinema italiano tem uma longa tradição de qualidade. Mas este ano de 2017 nós decidimos dar uma atenção especial, produzindo a mostra Foco Itália, para revelar a diversidade da produção italiana atual e apontar tendências que se anunciam nos filmes. E para isto, quero agradecer muito especialmente ao Consulado Italiano, ao Instituto Italiano de Cultura, à Anica _ a Associação Nacional da Indústria Cinematográfica da Italia, que reúne os produtores italianos. No caso de A Ciambra, é preciso destacar o trabalho inovador do diretor Jonas Carpegnino, e a presença de um produtor criativo, que tem muita paixão pelos seus projetos de cinema, que é o brasileiro Rodrigo Teixeira, que assina a produção do filme, com uma produtora em que é parceiro de Martin Scorsese. Tudo isto nos dá muito orgulho para apresentar esta produção italiana que tem um toque brasileiro.

Rodrigo Teixeira explicou como começou o projeto de fazer A Ciambra:

_ Conheci Jonas quando vi o seu longa-metragem anterior, A Mediterrânea,

Exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2015. Logo começamos a pensar numa parceria. Eu estava trabalhando com Martin Scorsese e fizemos uma seleção de projetos. Scorsese gostou muito do projeto de A Ciambra e nós começamos a rodar o filme entre maio e julho de 2016. Vocês vão ver que o filme tem um ritmo contagiante e acompanha o olhar desse menino na sua descoberta do mundo ao seu redor. E o resultado foi tão bom que o filme foi escolhido como candidato da Italia ao Oscar 2018 _ avaliou Rodrigo

Em seguida, alguém da plateia perguntou sobre as imagens de sonho do menino, nas quais ele vê um cavalo passeando pela mata. O diretor Jonas Carpegnino comentou a mistura de imagens oníricas e imagens realistas no filme:

_ Os passeios desse cavalo remetem às tradições ciganas, eles são uma forma lírica de tematiza o passado ancestral e constantemente em trânsito daquela comunidade. O cavalo é um símbolo, eles traduz o encontro entre o lírico e o poético, entre o imaginário delirante e a dura realidade _ disse Jonas.

 

O diretor também falou na música, sempre muito presente no filme, que trabalha com um elenco que não é profissional:

_ Vivendo com os ciganos percebi que esta tradição está na música, está na dança, está nas formas de festejar juntos. Este filme tem uma trilha sonora que é aquela que eles ouvem no cotidiano, uma seleção de sons e de músicas com a qual eles convivem e que muitas vezes partilham com os imigrantes africanos. _ afirmou Jonas.

Para o diretor, trabalhar com um elenco de ciganos e africanos foi uma experiência enriquecedora, definidora da estrutura do filme:

_ Eu decidi assumir um tom de documentário fazendo um filme de ficção. Eu queria inserir elementos verdadeiros na história, de modo que cada ator interpreta uma releitura de si próprio. Nós combinamos a sequência das cenas, combinamos as locações, mas houve muito improviso. Minha ideia era acompanhar o olhar do menino, do Pio, o modo como ele observa o mundo ao seu redor, o modo como reage a ele. Era um relato de formação. Eu estava com eles três dias e noites por semana. E assim ouvia muitas histórias… E queria ter aquelas histórias no filme, nas reuniões de família… Foi assim que filmamos várias cenas comunitárias, ao redor da mesa, por exemplo.

Alguém da plateia lembrou que o filme tem algo semelhante a Pixote, de Hector Babenco. Jonas gostou da observação:

_ Eu me sinto elogiado com esse comentário porque eu amo Pixote e sempre tive muita admiração pelo trabalho de Hector Babenco.

E sobre as relações familiares entre os ciganos e os africanos, Jonas disse que pretendeu expor as diferenças de vida comunitária, mas sem fazer juízos morais:

_ A Ciambra mostra uma família tribal, que reage como uma tribo, protegendo seus membros, exigindo fidelidade aos valores do grupo. Por isto, ao assumir acompanhar o olhar do menino Pio, ele resolvi eliminar qualquer julgamento sobre as suas ações. Os ciganos transitam num caminho marginal na sociedade italiana. E os imigrantes africanos também. É claro que n’os, espectadores, podemos observar o que se passa no filme com a nossa bússola moral. Mas ela é certamente diferente do modo como eles se vêem. Quando esta família cigana viu o filme, ficaram muito satisfeitos com o resultado. Eles se viram na tela do cinema. Eu não me aproximei daquela comunidade como faz um programa de TV na Itália que tem uma aproximação meio irônica e superficial dos ciganos. No filme não existe censura, nem ironia e nem julgamento. Houve até uma sessão do filme em que apareceram três policiais e os ciganos ficaram preocupados. Queriam que eu tirasse algumas cenas, como a que mostra os gatos para roubar energia… Eles me pediram para tirar aquele pedaço na sessão e depois incluir tudo de novo. Expliquei que aquilo era um filme de ficção e que não poderia simplesmente tirar um pedaço… Eles entenderam, mas ficaram preocupados com os policiais.

Jonas Carpegnino também está satisfeito de mostrar um outro lado da Itália, ainda desconhecido do grande público de cinema, que fala dessas comunidades marginais e das possibilidades de cooperação e de conflito entre elas.

_ Meu filme foi bem recebido, ainda que alguns políticos tenham reclamado da escolha de A Ciambra para representar a Itália na corrida pelo Oscar. Acho que este filme contribui para que os italianos reflitam sobre a sociedade em que vivem hoje _ concluiu Jonas.




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