O cineasta Giuseppe M. Gaudino, um dos maiores nomes do cinema italiano contemporâneo, esteve no Festival do Rio para lançar seu filme Per amor vostro. Rodado em Nápoles, no sul da Itália, o filme mostra através de imagens que mesclam colorido, preto e branco e animação, a exuberância do mar e o drama de Anna, uma mulher que vive na corda bamba entre o bem e o mal, a alegria e o desespero. Anna é interpretada pela atriz Valeria Golino, que também é coprodutora do filme e ganhou o Leão de Prata de melhor atriz no último Festival de Veneza. De passagem no Pavilhão do Festival, Gaudino falou sobre as inspirações do filme e a importância da geografia e da religiosidade para os napolitanos, além da principal motivação do roteiro: explorar os conflitos internos do ser humano.

Qual foi a inspiração para o filme?

Inspiração é um termo muito amplo. Mas havia um sentimento ético, político. Eu queria mostrar as consequências que sofrem aqueles que vivem ignorando a escolha entre o bem e o mal. Não sou religioso, apenas tenho uma espiritualidade; não falo de religião, mas esse conflito pertence ao ser humano, é intrínseco à essência humana.

O filme me pareceu uma espécie de alegoria da condição humana, com todos nossos dilemas morais representados. O uso desse formato poético, desse tom lírico, principalmente com as cores e a montagem, foi proposital para reforçar essa alegoria?

Voltando à coerência política, não era estético, era para contar coisas que todos nós da equipe vivemos, sentimento que nos unem. Não sou egocêntrico, mas o único método que usamos, foi estarmos todos juntos no set durante seis, sete semanas, mostrando o que me interessava e colocando em cena os mecanismos que nos agradavam. Ficamos todos juntos trabalhando, com os atores, produtores, sempre falamos de maneira muito emocional, sobre coisas que sentíamos, e não que funcionavam esteticamente. Até podiam ser belas também, mas porque queríamos que o público se identificasse com esse bem e esse mal, visse que o belo também tem um perverso, uma infâmia.

A ideia de mesclar P&B, colorido, animação e recursos inovadores de montagem surgiu durante as filmagens ou na pós-produção?

Ficamos trabalhando por quase dois meses. No início, o maior trabalho foi encontrar recursos para gravarmos por todo esse tempo. E depois, muito mais recurso para fazer toda a animação. Depois de unirmos as cenas, começamos a colocar esse componente. E a parte musical também, que é muito importante. Sem essa intervenção posterior, não fazia sentido a história.

Há algo na relação do povo de Nápoles com o mar, tão presente e poderoso, que talvez o público de outros lugares não entenda?

Não queríamos nem criticar nem exaltar Nápoles. Falamos de Nápoles e escolhemos Valeria [Golino, atriz nascida na cidade] por esse motivo também: ambas têm essa beleza tão conhecida, mas que pode ser triste também. Nápoles tem essa contradição muito forte, picos muito altos, penhascos e o mar. Altos e baixos. O golfo de Nápoles, tão grandioso, precisava ser revisto. Quando os napolitanos viram o filme, acho que entenderam esse sentimento comum, de desconforto de estar perto do mar. Mas não é algo sociológico, é ligado à psicologia dos personagens. Nós quisemos ressignificar essas coisas. É um filme subjetivo, não é um filme sobre as cenas, é do mundo interior.

Você não é religioso, mas ficam muito presentes no filme esses dogmas da Igreja. Isso é algo próprio da Itália?

Italiana não, mas napolitana.  Nápoles tem esses contradições. As cenas no interior da igreja, que mostram os ossos e as caveiras, são ossos de pessoas anônimas, de indigentes, e os fiéis vão lá e os “adotam”.  Isso traz um sentimento de grande humanidade. Ajudar o próximo tem uma contradição interna, típica de Nápoles, de justificar o porquê de vivermos juntos.

É comum o uso de metalinguagem no cinema italiano. No filme, a protagonista trabalha num set de filmagem e se envolve com um galã. Isso seria um tipo de referência aos anos 1950, a um certo glamour?

Não sei se é do cinema italiano, mas falo por mim mesmo. São arquétipos humanos e profissionais. Eu queria que tivesse esse glamour para contrapor à realidade por trás disso, mostrar o outro lado dessa fama. Esse profissional [que segura cartazes com as falas dos atores, como faz a personagem de Anna], que faz o ator chegar ao máximo da perfeição, não deixa ver o outro lado da moeda, o lado humano, a imperfeição. Queria mostrar outro ponto de vista dessa beleza, mostrar fragilidade.

A ideia era mostrar mentes frágeis que estão fora de si, sem mostrar as causas. Anna, por exemplo, não é coerente. Tem potencial, mas não tem as ferramentas para tomar as atitudes que deseja tomar, vive borderline. A história mostra isso, é isso que buscávamos, essas linhas tênues.

Como foi trabalhar com Valeria Golino?

Foi muito bom, ela é uma mulher muito inteligente, se arriscou, se entregou, se expôs. Para um ator é muito difícil fazer isso, mostrar os pontos fracos, a vulnerabilidade aos outros. Ela participou muito e se envolveu muito no processo todo porque foi coprodutora também.

Por Gabriel Demasi



Voltar