Por Aisha Rahim (Talent Press Rio)

“Da Argentina para o Mundo”. Assim era o slogan com que, em setembro passado, Mauricio Macri dava as boas-vindas a um batalhão de empresários em Buenos Aires. Um convite do presidente argentino para que investissem no país latino-americano, hoje às voltas com uma crise que parece ainda mastigar a recessão iniciada depois da Grande Depressão. Uma inversão do auge econômico e da excepcional estabilidade que marcaram o país no início do século XX.

Inflação, importação, desemprego, pobreza. Uma semântica que parece insuflar o subconsciente de duas produções argentinas reunidas na Première Latina do Festival do Rio: O auge do humano (El auge del humano) e Kékszakállú. Têm a assinatura, respectivamente. de Eduardo ‘Teddy’ Williams e Gastón Solnicki, realizadores estreantes em longas-metragens e que haviam sido revelados separadamente (Williams em Locarno, Solnicki em Veneza). A ligação entre os dois não é óbvia: o primeiro é uma espécie de road movie com contornos cibernéticos e transcontinentais; o segundo, um filme inspirado numa peça de música erudita. No entanto, ao vê-los juntos não houve como não sentir um diálogo complementar, uma malaise que os atravessa de alto a baixo.

Em Kékszakállú, Solnicki trata a indigestão econômica com a aparente leveza de uma ópera bufa. O título, em húngaro, é uma referência ao Castelo de Barba Azul, de Béla Bartók, que toma como inspiração oblíqua. São muito pontuais os excertos sonoros que reproduzem essa peça, e que surgem como breves pinceladas de humor num filme com poucas falas e cuja melodia se compõe a partir da montagem.

Também não vemos o aristocrata de queixo colorido que, segundo o conto popular, aprisionava e assassinava donzelas no seu castelo. Mas a moldura burguesa está lá: passamos o filme na companhia de várias moças (também há rapazes, mas em papéis secundários) de férias num resort, em condomínios fechados, a namorar ou a fazer o jantar para as amigas, a crescer e a sair de casa dos pais, ou na expectativa de o fazer.

Kékszakállú é uma ópera sobre o spleen – a melancoliabaudeleriana – de uma jovem burguesia filmada na redoma da sua própria inércia. Tomando o compasso da transição para a vida adulta, estão em questão tanto as suas vontades futuras como os seus antecedentes privilegiados, o vislumbre da sua independência e o cruel abandono do conforto a que foi habituada. Solnicki disse à revista Cinema Scope ter sido seduzido “pela essência material da arquitetura” por onde se movia a comunidade que filmou “e pelas vidas presas lá dentro”. “Não seria este paraíso branco à beira do mar uma espécie de inferno involuntário? Uma pessoa podia sentir aqui a circularidade do tempo, a repetição de gestos e a natureza embalsamadora da história a repetir-se a si mesma”.

À medida em que o filme, cujo elenco tem uma existência real, progride e se foca numa personagem específico, o olhar documental tomba para a fantasia e o simbolismo. A realização de Solnicki leva-nos a uma certa complacência perante esta moça que às tantas surge de bagagens feitas. Para onde irá não sabemos, o fundamental é a sua necessidade de fuga para outro lugar.

É curioso como as opções estéticas e narrativas de Kékszakállúparecem torná-lo um objeto polido. Ao seu lado, como parte de um díptico que se questiona e debate internamente, O auge do humano parece vir expandi-lo. Desde logo porque incorpora na sua passagem de lugar em lugar essa abstracta necessidade de fuga com que Kékszakállútermina.Grande vencedor da secção Cineastas do Presente no Festival de Locarno, o filme deTeddy Williams começa por seguir as pisadas de Exe, 25 anos, entre a casa e o trabalho, em Buenos Aires. Em contraponto com Kékszakállú, a paisagem aqui é suburbana, os planos menos enquadrados e mais imprevisíveis (porque no lugar de se abstraírem da realidade, absorvem-na), o percurso fluído e transatlântico. 

É difícil perceber quem é que esta câmara escolhe como personagem – se Exe, quase sempre visto de costas e cujas falas se confundem com o som em redor, a maior parte das vezes acompanhado por outras pessoas, às tantas também ele substituído por outros jovens da mesma idade; ou se a própria paisagem, polifónica e metamorfoseada, às tantas dona de uma cartografia que parece ironicamente “globalizada”.

Em entrevista à plataforma MUBI, Williams disse ser importante para ele “ter pessoas rodeadas por um ambiente maior, e tentar criar a personagem por meio dessa imagem-grande”: “Este tipo de imagem pode também criar a sensação de não saber para onde é suposto olhar e ao mesmo tempo pode te atrair para aquele movimento constante que cria uma melodia entre surpresa, variação e ligação entre diferentes corpos e lugares.”

Buenos Aires, Moçambique, Brasil, Filipinas. Ao mesmo tempo em que atravessa diferentes continentes, Williams combina vários tipos de formato (de 16 mm ao digital). Chegamos a cada paragem nova ora por meio da tecnologia ora por caminhos debaixo de terra. Neste último caso, somos conduzidos, não por acaso, por formigas proletárias, depois de alguém receber uma SMS perguntando: “Estás triste ou estás cansado?” A mensagem parece verbalizar o estado de espírito do filme.

A câmara íntima e ao mesmo tempo deslocada de Teddy Williams – “gosto de pensar tudo na vida e no cinema como um balanço entre opostos em tensão” –parece sussurrar: “desempregados do mundo, uni-vos”. É de facto esse estatuto – o de desempregados – a ligar estes jovens que comunicam e trocam de lugares nesta viagem pelo “auge do humano”. Como em Kékszakállú, também eles são levados pelo ócio, mas aqui é difícil adivinhar a sua próxima paragem, o seu próximo caminho, impossível alcançá-los nesta realidade que se multiplica em camadas, reais ou virtuais, físicas ou intangíveis.

No auge do capitalismo, da produtividade, da globalização, os filmes de Solnicki e Williams encontram uma juventude que se imobiliza ou circula no mesmo princípio de incerteza da realidade. Kékszakállúconclui-se com a necessidade de uma fuga. EmO auge do humano, a juventude não foge, deambula por dentro da engrenagem, talvez encontrando brechas na própria. No lugar do escape, vemos sugerida a possibilidade de uma emancipação.




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