Texto e foto: Dominique Valansi

Escultora, desenhista, gravadora e escritora, Maria Martins é um dos grandes nomes da arte brasileira. Um pouco do seu universo, pouco conhecido do grande público, é mostrado no documentário “Maria – Não esqueça que eu venho dos trópicos”, de Francisco C. Martins, para da Mostra Itinerários Únicos, da Première Brasil.

Nascida em Campanha, Minas Gerais, em 1894, Maria Martins desenvolveu grande parte de sua carreira no exterior, em virtude do trabalho de seu marido, o embaixador Carlos Martins. O filme revela a grandiosidade de sua obra e sua ousadia ao tratar diretamente da sexualidade através de uma visão feminina, uma das causas dos ataques que sofreu da crítica brasileira. Ela foi amiga de artistas como Michel Tapiè, André Masson, Yves Tanguy, Max Ernst e principalmente Marcel Duchamp, com quem desenvolveu uma amizade para além das artes.

Em 1947, André Breton assina o prefácio do catálogo de sua mostra individual, realizada na Julien Lery Gallery, em Nova York. Em 1948, muda-se para Paris, onde seu ateliê se torna um local de encontro de intelectuais e artistas. De volta ao Brasil em 1950, ela colabora na organização das primeiras Bienais de São Paulo e fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A artista faleceu em 1973.

O documentário, lançado na noite de 7 de outubro, no Kinoplex São Luiz 1, conta ainda com depoimentos de Malu Mader, Lucia Romano, Celso Fratelli e o curador e crítico de arte, Paulo Herkenhoff.

Leia a entrevista com o diretor Francisco C. Martins, um dos pioneiros do Novo Cinema Paulista, que escreveu e dirigiu, junto com José A. Garcia, os filmes “O olho mágico do amor” (1982), “Onda nova” (1984) e “Estrela nua” (1985). Em 2010, co-dirigiu “Luz nas trevas - A volta do Bandido da Luz Vermelha”, junto com Helena Ignez.

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Como surgiu a ideia de realizar este filme?

Eu tinha visto o “Impossível” (1940), trabalho da Maria Martins no MoMA de Nova York quando eu fazia intercâmbio como estudante. Era mais ou menos 1970 e eu fiquei com uma impressão profunda daquilo. E quando a produtora Elisa Gomes me convidou pra fazer o filme voltou aquela memória, achei uma coisa incrível. E aí nós começamos a trabalhar e se passaram alguns anos até o filme ficar pronto.

Como foi o processo de pesquisa de informações e imagens?
Nossa coordenadora de pesquisa, a “santa” Eloá fez um trabalho árduo. Quando começamos, nós tinhamos poucas informações da Maria Martins. E ela descobriu uma coisa incrível: mulher naquela época não era, digamos assim, “registrada”. Ela era “a mulher do embaixador”. Então ela teve que procurar arquivos no nome do marido da artista, o embaixador Carlos Martins, que aí ela aparecida junto. Mas na maior parte das vezes, não estava “indexada”. Uma coisa absurda para a gente pensar hoje em dia. No final, conseguimos achar muito mais material do que a gente achava que tinha, através do marido ou de situações, como uma feira internacional.

E a relação dela com Marcel Duchamp?
Isso foi uma coisa que já veio à tona há uns oito, dez anos. Nós conseguimos as cartas, que tinham acabado de ser editadas pelo Museu da Philadelphia. O incrível foi descobrir que a relação foi muito maior, muito mais forte do que a gente imaginava. É uma super história de amor que durou décadas.

Como foi a participação do crítico de arte Paulo Herkenhoff na produção?
Ele foi um dos guias do filme, deu uma super orientada e um dos primeiros e mais importantes depoimentos mais importantes do filme. Foi fundamental.




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