SLAM: Voz de levante foi tema do Cine Encontro nesta sexta-feira (14/10), mediado pela educadora Sinara Rúbia. O debate contou com a presença das diretoras Roberta Estrela D’alva e Tatiana Lohmann, do Lucas Afonso, finalista do Slam Resistência em 2016 na França, e Letícia Brito, organizadora de Slams brasileiros. O documentário aborda o crescimento do campeonato de poesia falada no Brasil em um viés que defende a resistência da mulher negra.

​Lohmann divulgou como foi que surgiu a ideia de tratar sobre esse tema. “O objetivo é explanar o Slam e o momento que a gente vive com o levante das forças brancas conservadoras. Acho que o Slam é um espaço da política e da poética que é muito barato e fácil de fazer. Precisa, basicamente de gente pra falar e pra ouvir, tanto que, aqui e lá em São Paulo, o Slam é, às vezes, feito na rua. Precisa só de gente em uma roda. Isso veio dos nossos ancestrais, essa coisa de sentar em volta de uma fogueira e contar histórias. Os guerreiros estão ali pra conversar. A gente está precisando disso e conversar através da poesia a gente avança muito no diálogo e informação política”. Além disso, contou que ainda sobrou um material de 400 horas, que pretende transformá-las em conteúdo para série ou portal com o objetivo de expor esse encontro da diversidade.

Roberta aproveitou e complementou sobre o propósito do filme. “A primeira vez que fui no ZAP [Zona Autônoma das Palavras, em São Paulo], eu achei muito contagiante. Tem todo tipo de gente - poetas, letristas e rapper. Só que, naquele momento a gente pensou que poderia fazer uma série de tv. Cada edição do ZAP fosse um episódio, mas, quando a Roberta foi convidada pra participar da copa do mundo, vimos aquela babel de poetas. Tantas línguas, assuntos e estilos, que começamos a achar que aquilo dava algo a mais e, com o tempo, vimos que isso era um longa”. Lucas Afonso falou sobre o valor que os Slams trazem para a população, principalmente de baixa-renda, “Eu sinto que o Slam, além de trazer uma proximidade com a oralidade e com a literatura, tem um lance com o protagonismo e a autoestima de quem participa. Isso o tem uma importância. Eu acho que, como participante, eu pude colocar minha quebrada no mapa através da força da palavra”.

Letícia ressalta os aspectos da mídia que influenciam sobre a divulgação dos Slams. “O importante é a forma como os recursos áudio visuais contribuem para a propagação dos Slams. Como é muito forte em São Paulo e aqui no Rio de Janeiro a gente tá tentando potencializar essa cena desde 2013, agora, com o acesso do Slam Resistência no Youtube, foi uma coisa que fez com que o pessoal do Rio visse a potência daquilo”. Além disso, também enfatizou as características das vencedoras no Rio de Janeiro. “Então, quando a gente lançou o Slam das minas, no primeiro evento, tinham 400 pessoas na praça, no Largo do Machado. Isso foi incrível e fizemos 7 edições mais a Final, e, em todas as edições, quem ganharam foram mulheres pretas, acho isso muito significativo, muito simbólico e a maioria dessas pessoas pretas eram, inclusive, lésbicas. É muita resistência, mulher, preta e lésbica, falando na praça de negritude e de violência”.

Quanto a montagem, Lohmann revelou que houve uma dificuldade em relação a cronologia. “Os cortes eram muito longos e os nossos colaboradores diziam que estava cansativo, até que, a gente optou por fazer um script doctoring com um roteirista, o Miguel Machalski”. Ele, segundo Tatiana, sugeriu que estruturasse o documentário por temas. Com isso, foi possível ter a liberdade cronológica de passear pelo tempo. Tatiana exemplificou que, como o Slam era cultura de rua, a passagem de tempo era representada por cenas de avenidas e esquinas, onde mostra a realidade dos lugares pelos quais são apresentados no filme.

Por fim, Roberta esclareceu quanto a competitividade do evento, mostrado no documentário. “A competição é pra focar a atenção das pessoas. Ela não deveria ter tanta importância. O que aconteceu é que, teve a Copa do Mundo, e foi ficando um pouco mais ‘sanguinária’ a competição, porque o objetivo é se juntar pra falar e se divertir acima disso. Então, no final foi quase que um sofrimento. Não podemos perder essa perspectiva de diversão”. Em referência a performance, Roberta disse que a língua, realmente, favorece muito para prender a atenção tanto do público quanto dos jurados. “ É o melhor poeta daquele momento. Quem ganha Slam, não é o melhor do Rio de Janeiro, nem de São Paulo. É o melhor naquele momento com aquele público. De tantos fatores que implicam em uma nota é a performance poética, não sobre poesia. É muito diferente”.




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