“Eu sei que pareço branco, mas na realidade eu sou negro. Completamente negro” – avisa João Viana, diretor de A batalha de Tabatô, antes mesmo de começar a entrevista. Filho de portugueses, João nasceu em Angola e lá viveu até os oito anos. O vínculo eterno com sua terra natal permeia todas as suas realizações e impulsos criativos desde seus primeiros trabalhos – “a África precisa ser descoberta. Diferente do que me contaram na escola em Portugal, fomos nós, os africanos, que inventamos a cultura moderna, as bases do jazz, do reggae. Só nos falta agora inventar a paz, mas acredito que estamos no caminho.”.

Como cenário e “protagonista” de seu primeiro longa, o realizador escolheu a mítica Tabatô, uma pequena aldeia em Guiné Bissau habitada única e exclusivamente por músicos. O processo de desenvolvimento e produção do projeto durou nada menos que cinco anos e contou com a colaboração fundamental dos próprios habitantes desse “oásis no meio de um dos mais pobres países do mundo”, como João define. “Eu não podia chegar na África com um roteiro por que eu não sou colonizador”, brinca. “O processo foi longo por que as conversas na África são longas, eles são contadores de história por natureza. O resultado é que eu fui escolhido pelos meus protagonistas e pela história que o filme conta, e não o contrário.”.

Hoje João vive em Berlim, cidade onde estreou seu longa e o curta Tabatô, feito em paralelo e lançado simultaneamente. “A atmosfera e os personagens são os mesmos em ambos os projetos, mas eles têm dinâmica e formatos diferentes. São filmes complementares, mas que têm vida própria. Foi bom vê-los estrear juntos em um mesmo festival e serem premiados em suas respectivas categorias”, conta.

Com a colaboração de outros 20 realizadores portugueses, João realizou recentemente o documentário/manifesto Ó marques anda cá abaixo outra vez, sobre os devastadores efeitos da crise econômica portuguesa na produção cinematográfica do país. Questionado sobre o momento especialmente vibrante em que produção portuguesa se encontra, apesar do contexto, João consegue enxergar um lado positivo na dificuldade em se conseguir financiamento: “toda a crise traz coisas boas. O Orson Welles dizia que a Suíça nunca teve um grande cinema por que eles tiveram cinco mil anos de paz. Acho que o bom momento do cinema português e do cinema grego é prova disso”. E o cinema grego está entre as suas predileções também no Festival do Rio. “Estou muito curioso sobre Sonar [do diretor  Athanasios Karanikolas]. Também quero descobrir os novos realizadores brasileiros. Glauber Rocha foi muito importante para a minha formação, tenho muito respeito por sua cinematografia”, conclui.

O diretor apresenta a sessão de A batalha de Tabatô nesse domingo, dia 29, às 17h30 no Estação Rio 3. O filme será reprisado nos dias 30 (às 19h40 no Estação Vivo Gávea 1) e 8 de outubro (às 21h30, no Estação Botafogo 3).



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