Texto de Sérgio Raimundo

A Fábrica de Nada conta a história de um grupo de trabalhadores duma fábrica de elevadores que, depois de terem sido roubadas as máquinas e matéria-prima pela administração, decide manter-se na fábrica mesmo sem fazer nada. Eles mergulham então num total desemprego e aguarda suas respectivas demissões.

Esta longa-metragem de quase três horas constitui um espelho daquilo em que as fábricas se transformaram após a revolução tecnológica. Poderia o filme ser visto como encenação dum passado português, mas ele constitui, mais do que isso, uma voz que fala da crise atravessada pelas indústrias e fábricas e do fim do discurso político que prometia futuro melhor.  

“O mundo não se divide mais entre direita e esquerda, mas sim entre aqueles que se submetem e aqueles dispostos a abrir mão de seus sonhos, dos telefones celulares, das viagens à Lua”. Essa frase constitui uma das passagens do filme e, como se pode perceber, carrega de forma nítida a tendência cosmopolita que reside nas cenas. Em todo instante, o filme procura não ser da direita e nem se fazer da esquerda. Procura ser um filme do mundo e sobre o mundo.

Marcado por números musicais incorporados à narrativa, contradições políticas, peripécias sociais, personagens que militam pelas suas causas, humor que levanta o riso e compaixão, este filme é um convite à reflexão dum passado recente que deixou muitas famílias entregues à incerteza e ao medo pelo amanhã.

A Fábrica de Nada é, numa outra perspectiva, uma fábrica de reencontro com o passado, uma fábrica que, mesmo sem produzir elevadores, eleva-nos a pensar e a reflectir sobre como, por vezes, em tempos de total crise, o trabalho humano é banalizado. Esta longa-metragem tem um total compromisso com o tempo presente, visto que procura mostrar-nos pequenos pontos cardeais negros que, outrora, cegamente fizeram-nos acreditar num destino certo.




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