O olhar estrangeiro sobre o Brasil é um dos assuntos mais instigantes da mostra Fronteiras do Festival do Rio 2016. Dois filmes dirigidos por estrangeiros se debruçam sobre o cotidiano das favelas brasileiras. E aquilo que revelam sobre o Brasil no Festival do Rio começa a percorrer o mundo, em festivais internacionais. Um dos filmes passou pelo Festival Internacional de Toronto, no Canadá, e o outro tem passage marcada no DocLisboa 2016, em Portugal.

Inside the mind of the favela funk, de Elise Roodenburg e Fleur Beemster, é uma ousada produção holandesa que passeia pelos bailes funks da Vila Aliança, na Penha, no Rio, para flagrar a mistura de música, dança, violência e drogas, numa cultura de subúrbio em que o machismo começa a ser questionado e adolescentes sonham fazer a sua revolução sexual. O funk da favela serve então de guia para este mundo novo a ser desbravado por viajantes holandesas curiosas com a ginga, a gíria e a batida desse ritmo sensual da periferia carioca. A narrativa busca desbravar as letras do funk tendo como perspectiva a visão de adolescentes que sonham encontrar relações amorosas duradouras em meio a uma cultura permeada de muita violência, guerras entre gangues de traficantes, tiroteios com a polícia e os milicianos. Existe amor neste universe dilacerado? É o que perguntam as diretoras que se aventuraram pelos bailes funk. Mas as respostas ficam bem mais por conta dos espectadores. Os personagens reais do funk carioca são muito desafiadores para cineastas de origem européia, de cidades como Amsterdam, que há muito resolveram seus conflitos policiais. O filme está na programação do DocLisboa 2016.

A favela também serve de tema e cenário para o filme do australiano Dan Jackson, Na Sombra do Morro (In the Shadow of the Hill). Neste documentário, porém, a abordagem é bem mais sombria: o filme investiga o impacto sobre a comunidade do desaparecimento, em 2013, de Amarildo Dias de Souza, o pedreiro que se tornou internacionalmente conhecido por ter sumido após ser abordado por policiais na favela da Rocinha, no Rio. Neste caso, o que serve de guia para o olhar estrangeiro é a luta por justiça, por uma comunidade pobre, que tenta sobreviver no equilíbrio precário entre a tirania do tráfico e a violência policial.

Amarildo foi um símbolo das manifestações de rua de 2013, em protesto contra abusos da policia militar e as muitas falhas da política de segurança do estado. Dan Jackson expõe o alto custo social imposto a comunidades pobres num país como o Brasil que, entre 2007 e 2013 registrou 38 mil casos de desaparecidos, sendo que mais de um terço deste total envolve suspeitas de envolvimento de policiais, a imensa maioria sem investigação e nem processo judicial. O filme de Dan Jackson torna o caso de Amarildo exemplar daquilo que o director acredita ser uma política de “limpeza da área”, impondo limites territoriais aos domínios do tráfico na geografia carioca, às vésperas da Copa de Mundo de 2014 e a caminho dos Jogos Olímpicos 2016. Na Sombra do Morro levou este debate ao Festival Internacional de Toronto, no Canadá, numa das mostras mais prestigiadas do atual circuito cinematográfico.




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