Por: Mariana Isis

Neste sábado (10/11), último dia da mostra Première Brasil: Retratos, foram exibidos em sequência Tá rindo de quê? - Humor e ditadura e Rindo à toa: humor sem limites, dois longas que fazem parte de uma trilogia roteirizada e dirigida por Cláudio Manoel, Alvaro Campos e Alê Braga. O primeiro aborda a resistência de grandes humoristas brasileiros durante o período ditatorial, enquanto o segundo focaliza o intervalo entre os anos 1983 e 2000, considerado aquele com menos limites para o humor nacional. Houve um debate mediado por Marcos Veras com os três diretores e roteiristas.

Veras iniciou a conversa perguntando como e quando começou o projeto. Segundo Cláudio Manoel, começou há 2 anos com um convite inicial da Globo Filmes para realizar um filme sobre o Pasquim; Alvaro sugeriu que expandissem o universo retratado e Cláudio decidiu construir uma trilogia sobre o humor no Brasil. Em Tá rindo de quê? Alguns dos grandes nomes brasileiros da comédia são mostrados numa intensa produção de driblar a censura e em Rindo à toa há o balanço entre uma falta de limites observada até os anos 2000 com o amadurecimento da internet. “Pra quem criava naquele primeiro momento, existia um mecanismo de Estado para controlar, cercear ou reprimir a criação em excesso e agora os mecanismos são da sociedade, há algoritmos que fazem isso.”, afirmou Cláudio Manoel.

Em seguida, o mediador aprofundou no assunto dos limites postos para o humor atualmente – que, sem dúvidas, seria o principal questionado no debate – e indagou os realizadores se é possível estabelecer o paralelo com a censura imposta na ditadura. Para Alvaro Campos, “o humor de uma época é o diálogo dos artistas com a época em que eles vivem. O diálogo hoje é muito particular, (…) A curadoria do humor que se faz é absolutamente individual.”; assim, considera um fenômeno de pluralização da comédia e que, atualmente, o humor precisa saber lidar também com a resposta imediata dos receptores.

Marcos Veras, participativo, questionou se o humorista ainda hoje apresenta uma espécie de “blindagem” à sua comédia, como acredita ter sido há décadas. Para Alê Braga, o feedback imediato proporcionado pela internet reduz a imunidade do humorista, mas justamente por essa nova dificuldade é que ele considera mais importante continuar a fazer humor.

Abrindo para perguntas da plateia, um espectador, já no clima humorístico, perguntou: “A comédia pastelão virou a comédia coxinha?”, despertando risos no público. Cláudio Manoel acredita, porém, que não: apenas o tempo do humor que mudou – agora ele é feito no mesmo segundo dos acontecimentos – e assim abrindo espaço para os mais variados tipos de humor. O termo “ditadura do algoritmo” veio à tona, e Cláudio rapidamente afirmou: “se [o algoritmo] dialoga, não há ditadura”. Hoje, é a opinião do público que também está presente na sinalização dos limites do humorista. 

Alê Braga comentou que a internet traz muitas possibilidades para os humoristas, desde a realização para a grande massa consumidora, até a comédia de nicho. Alvaro completou que não há mais o escudo do ridículo para o comediante: “O comediante tem que controlar a piada e a consequência da piada”, o que por outro lado gera uma exposição grande do humorista.

Numa imersão sobre o assunto da internet, uma membra da plateia indagou em que medida o humor e outras formas comunicativas estão preparados para lidar com a modificação gerada na experiência do transmissor-receptor pela divulgação instantânea. “Com essas ferramentas democratizantes, muitas coisas vão mudar”, respondeu Cláudio, reforçando que enxerga o processo de alteração da dinâmica humorística com naturalidade.

Alterando um pouco a temática discutida, Marcos Veras levantou a questão sobre o preconceito contra a comédia, em especial a popular. Cláudio comentou logo em seguida: “A gente [integrantes do antigo Casseta e Planeta] queria ser pop. A gente nunca quis ser de nicho, cult. (…) Mas eu por exemplo não me sinto vítima de preconceito, eu me sinto realizado por fazer o que eu gosto”. Assim, apesar de concordar que a comédia é enxergada como um gênero menor, acredita que os humoristas devem é continuar rindo.

Sobre o tipo de humor que deve ser realizado no atual cenário político brasileiro, Cláudio Manoel pensa que o comediante não tem motivos para reclamar: “Ele [o presidente da República eleito] é um personagem histriônico, a quantidade de gente que o imita é inacreditável. Pro humor, eu acredito que vai dar caldo.” Foi perguntado, por fim, quem os realizadores acreditavam que poderia ser o futuro do humor no brasil, num cenário em que redes sociais são responsáveis pela viralização de novos comediantes. Cláudio Manoel apostou no grupo Choque de Cultura e concluiu a mesa.



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